Dia 6

Dia 6: Córregos – Conceição do Mato Dentro

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 05/01/2016 às 01:46

Enfim. Chega o dia de encarar um dos primeiros temores do Caminho dos Diamantes. Em Diamantina, o Marconi me alertou sobre a passagem por Conceição do Mato Dentro. Outras pessoas também comentaram o mesmo. Qual era o temor? Alertaram que a cidade estava sofrendo “fortes impactos” pela ou pelas mineradoras que se encontram a exaurir os minerais do solo da região. Informações perante o caos institucionalizado, devido a obras no viário, poeira, supervalorização das diárias de hospedagem, até mesmo o arrendamento de alguns estabelecimentos hoteleiros para acomodação dos funcionários. Era certo que havia problemas na oferta e no custo da hospedagem.

Para tentar sanar a questão da hospedagem, o Marconi indicou-me tentar hospedagem na vila do Tabuleiro, onde localiza-se a mais alta cachoeira do Estado, homônima à vila. No planejamento descobri que no local há um hostel. Porém, logo constatei um problema: o Tabuleiro fica a 14km de Conceição do Mato Dentro. De Córregos a Conceição seriam 22,3km. Somando os outros quatorze, acreditaria ser inviável. Tocar para Morro do Pilar seria encarar os 22,3km mais 27,4km. Não conseguiria escapar de Conceição do Mato Dentro. Psicologicamente estava conformado em gastar um horror em diária para dormir numa espelunca, fedendo a cigarro.

Parto de Córregos as 7h30. O trecho da estrada que segue ao encontro da MG-010 não é pavimentado e bem tranquilo perante tráfego. Sigo em ritmo bem forte na marcha da caminhada. Próximo ao acesso a MG-010 pego uma queimada de manejo de pastagem. Logo após, embaixo de uma ponte, paro para o meu almoço. Após esse ponto, na MG-010, vem a ser uma rodovia toda pavimentada e com trechos precários de acostamento.

O pavor referente aos preços altos e a possibilidade de não encontrar hospedagem me atormenta.

Ao chegar ao primeiro bairro da cidade, ao longo da rodovia, percebo com meus olhos o que me foi alertado: poeira, trânsito de picapes de mineradoras, alguns equipamentos, via com muitos buracos, casebres feios e obras.

Sigo o caminho até avistar um primeiro prédio histórico. Olho a minha direita e vejo uma sorveteria da Gellak. Acabei me viciando nos picolés de açaí e de banana. Extremamente bons. Paro para degustar um picolé e aproveito para sacar o meu passaporte da mochila, junto com as anotações do planejamento. Por acaso, descubro que o local onde devo carimbar o passaporte encontra-se do outro lado da rua. Em frente à sorveteria havia uma pequena praça. Logo após, a lanchonete.

Pago os picolés – não me contive em um só – e atravesso a rua. Há uma única moça no balcão e pergunto sobre o registro do passaporte. Por alguns minutos fiquei receoso, pois a moça teve uma inércia de boa vontade que acreditei que a resposta seria negativa. Ela se vira, mexe no armário, até que surge a pasta com os papéis do controle do carimbo.

Nesse entretempo, um casal vestindo jeans e jaquetas de couro, de posse de capacetes de moto, entra no recinto. Lembro-me deles, pois na entrada da cidade cruzei com eles. Jovens, simpáticos e de posse de uma simples moto, mas com espírito de uma bigtrail, seguimos a conversar enquanto meu passaporte ia sendo carimbado. Eles são citadinos, com cara de roqueiros. Pedi informações sobre hospedagem. Acabaram me repassando uma informação bem complicada. Durante o final de semana, está ocorrendo o festival Projeto Matriz. E nesse sábado teria um show gratuito do Milton Nascimento. Logo pensei:

“Hotéis lotados e caros!”

Desesperado, peço uma dica de hospedagem. O rapaz me indica a Pousada do Carioca. Repassou-me as coordenadas, mas somente memorizo duas dicas: o ponto de referência – o posto Petrobrás no centro – e virar à esquerda no quarteirão do mesmo.

Dou adeus ao jovem casal e sigo o caminho. Cruzo com ruas fechadas para o trânsito e todas em obras. Acabo encontrando uma senhora a caminhar no mesmo sentido e confirmo o sentido do posto. Ela afirmou para seguir a frente. Chego no posto, viro à esquerda. No mesmo quarteirão avisto um hotel. Localizado em um edifício, adentro-me para perguntar a tarifa. Resumo: grande, com ares de ruim e caro, a R$180.

“Ferrei-me!”

Sigo a procura da Pousada do Carioca e passo por duas esquinas. Cruzo com um homem, no sentido contrário e descendo a ladeira. Pergunto a ele, o local da pousada. Como resposta ele me aponta para próxima quadra a minha direita, em umas construções com chalés. Chego ao local e, ao perguntar a uma pessoa, constato que o mesmo está lotado, sem vagas. O proprietário indica uma hospedagem da Dona Ana ou Maria. Não me recordo.

Sigo o caminho, eis que reencontro a senhora que pedi informações sobre o sentido do posto Petrobrás. Ela me indicou a Hospedagem Mãe Luzia, em uma casa de dois andares na quadra de cima. Apontou o local para mim e havia um homem na porta. Chego ao local e o homem era o mesmo que pedi informação do local da Pousada do Carioca. Um baiano gente boa que estava a esperar a namorada para o amor!

Conversamos os três: o baiano, o Sr. Joaquim – proprietário – e eu. O foco era a disponibilidade de vagas e o tarifário. O simpático velhinho nos afirmou a disponibilidade de vagas. Sinceramente, esse local foi um presente dos deuses. Quarto simples, mas decente. Pousada vazia, com um local para lavar e estender roupas. E para melhorar, a diária saia por R$30, com café da manhã no térreo, dentro da casa do Sr. Joaquim. Resolvo ficar dois dias e curtir o evento cultural na cidade e recuperar os pés.

No quarto, abro a mochila, tiro as botas e arranco os curativos. Tomo um banho e, logo após, sigo a cumprir as tarefas obrigatórias de lavar roupas. Tampo o ralo, coloco sabão em pó, abro a torneira e jogo as minhas roupas no tanque. Lavo os pares de meias, os shorts térmicos, e as camisas. Resolvo lavar a calça também. Quando inicio a esfregar a calça, percebo que esqueci de tirar o celular do bolso. Ligeiramente saco o aparelho do bolso, tiro a bateria, chip e seco-os com a toalha. Desço para solicitar ao Sr. Joaquim um copo de arroz cru.

Retorno ao quarto e resolvo me organizar para realizar o meu city tour. Eis que outro evento caótico acontece. Coloco os meus óculos sobre a cama. Levanto para pegar algo na mochila, e ao sentar novamente na cama, apoio minha mão sobre o mesmo. Resumo, quebrei o canto da lente e a haste.

“Oh zica!”

Consigo contornar o problema, remendando a lente e a haste com fita isolante. Tudo resolvido. Agora sim. Me preparo para, então, perambular pela cidade. Retorno à Rua Juscelino Kubitschek na qual cheguei ao posto. Na vinda percebi uma loja de quitutes e doces mineiros. Resolvo ir para lá a procura de café e algum pequeno lanche. Encontro vários doces de frutas em compota, doce de leite, pimentas, porém não há café. Acabo comprando uma bandeja com “figos” cristalizados e recheados com doce de leite.

Também obtenho a programação do festival Projeto Matriz. E constato que a sorte minha foi grande nessa estada em Conceição do Mato Dentro. Para os dias que ficaria na cidade – sábado e domingo – a programação era muito boa. Para o dia de hoje, sábado, constava: apresentação de artistas circenses argentinos; apresentação do Grupo Folclórico Aruanda de danças mineiras; show com os músicos Silvério Pontes e Carlos Malta; e nada mais nada menos do que o contextualizado show do Milton Nascimento. No domingo, ocorreria uma apresentação musical com quarteto de violão clássico de Ouro Branco, na Igreja do Rosário.

Empolguei-me com a programação para o final de semana. Também seria a possibilidade para dar uma folga aos pés. Saio da loja de quitutes e volto a caminhar pela cidade. Subo uma rua em busca do lado histórico da cidade. Resolvo abrir a minha bandeja dos “figos”. Rasgo o plástico e sigo a caminhar. Coloco um doce a boca e sigo a caminhar. Sinto um sabor diferente e paro para avaliar melhor a bandeja. Tenho uma enorme surpresa de paladar. O sabor não é de “figos”. Percebo um sabor ácido e misturado com o doce de leite. Deliro. O que acreditei serem figos, são limões cristalizados com doce de leite!! Considero o mais saboroso engano gastronômico da viagem.

Muito bom. Excelente. Ao falar de Conceição do Mato Dentro, diferentes pessoas indicaram como experimentação gastronômica procurar o “pastel de angu”. Infelizmente, nessa estada, não encontrei aonde comer.

Na parte central, perto ao posto, tinha uma padaria que serviu de apoio para cafés e lanches. Porém o atendimento era ruim. As funcionárias com aquele aspecto:

“Foda-se o dono, pois é ele que fica rico com o meu trabalho.”

Ou

“Estou de saco cheio de atender brutos mal educados”.

Porém, elas também não tinham muita moral, pois as palavras “Por favor” e “Obrigado”, literalmente não pertencem ao vocabulário das mesmas. Todos temos o que merecemos!

Fiz um malabarismo virtual para conseguir que me enviassem uma receita médica por e-mail para poder comprar antibiótico para os pés.

Perambulo pela cidade tirando fotos. Passo pelo centrinho histórico, avistando a Igreja Matriz N. S. da Conceição em reforma. A cidade também possui um complexo de casas, casarios, casarões e prédios públicos antigos. Há um charme arquitetônico histórico ao redor de todo o caos. Visito também a Igreja de Santana, uma pequena igreja num ponto alto da cidade. Desse ponto tem-se uma bela vista da cidade e da Igreja de Bom Jesus de Matozinhos que transmite missas, música de igreja e orações pelo alto-falante. Poluição sonora em nome de Deus.

Sigo em direção da Igreja de N. S. do Rosário para verificar onde iria ocorrer o show. Vejo um velho senhor sentado nos degraus da entrada lateral da igreja. Acabo me aproximando, sentando junto a ele e trocando uma prosa. Era o Sr. Antônio, 82 anos. Me contou um pouco da história: casou cedo, ele com 17 anos e a esposa com 15 anos. Tiveram 11 filhos, sendo um falecido quando bebê. Teve como herança um lote de terreno e muito trabalho para a vida, que não foi nada fácil. Trabalhou na roça, como marceneiro, como madeireiro, pedreiro e construtor de telhados. Nota-se um orgulho pelo árduo trabalho, sem precisar pedir nada para o governo, ou achar-se vítima do sistema por ser pobre. Educou os 10 filhos e já é bisavô. São esses momentos de compartilhamento de histórias de vida com pessoas desconhecidas que por mim considero os momentos mais ricos de uma epopeia como essa, na Estrada Real.

Volto à hospedagem. Roupa seca. Descanso brevemente e retorno para os eventos culturais. Um movimento modesto, mas assisto uma apresentação circense de uma dupla de palhaços da Argentina. É bom ver as crianças se divertindo. É bom voltar a ser criança. Na sequencia, o público começa a aumentar. A temperatura cai e inicia-se o show do Grupo Folclórico Aruanda. Logo após, iniciam-se as atividades de acordes dos metais com os músicos Silvério Pontes e Carlos Malta – trompete, saxofone, flautas, jazz/bossa nova. Lá pela meia noite e meia, eis que se inicia o show do Milton Nascimento. Está velhinho o grande artista. Nele encontra-se muito do espírito de Minas Gerais. Valeu a luta contra o sono e o frio. Volto para a hospedagem e capoto na cama.

6o dia

Caminho dos Diamantes
06/setembro/2014
24,91 km percorridos
Localidades
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Todos os trechos

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Caminho dos Diamantes
Caminho Velho


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Meu pernoite

  • Pousada Boa Esperança
  • Hospedagem Mãe Luzia

Coisas interessantes que vi


Selfies e pessoas que encontrei

  • Adeus Córregos
  • Almoço na ponte
  • Sr. Antônio – CMD

Galeria no Panoramio


Fotografias