Dia 49

Dia 49: Passa Quatro – Vila Embaú – Cachoeira Paulista (rural)

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 05/12/2015
Modificado pela última vez em 12/04/2016 às 00:04

Acordo, recolho as roupas do varal usadas na piscina, arrumo a mochila e tomo meu café. A porta do quarto não se abriu, e não mais a vi. Dou adeus a Dona Doca e prometo o envio da foto.

Sigo o rumo com a cabeça a mil, pensando na história da paulistana. Não há o que reclamar da vida. Chegando à comunidade de Pinheirinhos, ainda em Passa Quatro, um homem de carro parou para conversar comigo. Expliquei da minha viagem. Ele simplesmente respondeu:

“Que coisa mais incrível e rica. Que experiência de vida. Gostaria muito de ter a disposição que você tem. Um dia ainda farei, mas sabe como é: esposa, filho e contas a pagar.”

Nem todos têm uma família, um pensamento e modo de vida a Amyr Klink. Literalmente, não são somente os recursos financeiros e a disponibilidade de tempo que habilitam o indivíduo a cometer “ricas insanidades”.

Sigo o rumo para a divisa, cruzando por um cenário rural montanhoso. Muito vento para aliviar o calor. Porém, a lembrança da história da paulistana não cessa. Lágrimas brotam, mas não aliviam a angústia. Um grande lapso de atenção, passo batido pelas intermediações do lado mineiro do túnel ferroviário da Serra da Mantiqueira, conhecido pelos atos belicosos da Revolução de 32. Quando percebo, logo estou no asfalto e chego à divisa dos Estados de Minas Gerais e São Paulo.

Um filme de memórias próprias passa pela minha mente. Contabilizam 48 dias intensamente vividos em Minas Gerais. Lembro dos caminhos, pessoas, bolhas nos pés, cidades, riquezas arquitetônicas, comidas e belas paisagens. E agora me deparo com o marco da memória de uma guerra civil e avisto terras paulistas.

A emoção toma conta do meu corpo. Agradeço a viagem até o momento e fico a deslumbrar um pouco a paisagem. Percebo alguns ciclistas chegando do sentido São Paulo e coloco-me a descer. Conforme uma afirmação positiva do Marconi, ao verificar o tracklog do caminho, sigo a antiga rota para visitar então o lado paulista do túnel. Peço informação em uma residência, no qual uma senhora ficou muito desconfiada. Praticamente estava a caminhar em propriedade privada. Atravesso duas porteiras e uma pequena área de pastagem para gado, chego a entrada do túnel. Tento verificar as condições para tentar atravessá-lo para o lado mineiro, mas o excesso de água e lama no chão não me estimulam a transpô-lo. No local há um marco das terras paulistas. Tiro fotos e tento tranquilizar a minha mente.

Sigo o caminho, agora junto à linha férrea. Vegetação fechada e condições planas para caminhar, impostas pela geometria da ferrovia. Logo encontro a estrada convencional e uma bela e íngreme descida a caminhar. A vegetação por um curto espaço me acompanha. Depois, sigo pelo caminho da bocaina absolutamente sem nada de sombra. Paro em uma porteira para descansar e fazer um lanche. O calor agora é uma tortura e o frescor da vegetação ficou na serra.

Pego um considerável trecho de via pavimentada com um tráfego em alta velocidade: SP-052. Felizmente, acesso um trevo à direita na comunidade de Passa Vinte. Sigo por uma via pavimentada, mas de baixo tráfego. Nessa comunidade, há um conjunto de piscinas e clubes de metalúrgicos da região de Cruzeiro. Paro em uma lanchonete para tomar algo gelado e aproveito também para comer um salgado recém-saído do forno. Um bêbado chato me tira a paz. Dou uns “cortaços”, mas depois reflito que estou em “área inimiga”, ou que “o elo mais fraco sou eu, mano”; “vida loka”!

Converso um pouco com um dos filhos do dono do bar. Pessoas em traje de piscina, eu de manga longa e chapéu. Difícil não virar o centro da atenção. Depois da conversa, digo adeus e sigo o meu caminho. Tinha uma indicação da existência de um motel na Vila Embau, sem café da manhã. Não fiquei muito motivado para tal. O local é um distrito de Cachoeira Paulista e historicamente muito representativa para os Bandeirantes. Porém, com o tempo, ela estagnou.

Por cansaço, resolvi não passar por ela. Peguei um atalho pela própria rodovia. Estava um pouco tenso no quesito hospedagem. Antes de chegar na vila, paro numa casa para pedir informações, mas deveria não ter feito. Sigo o rumo, meio irritado pelo sol e desvio pela rodovia. Acho que tomei uma decisão que me irritaria mais ainda, pelo fato de caminhar numa pista com automóveis em alta velocidade. A grande vantagem, comparada às rodovias mineiras, é a ótima definição geométrica dos acostamentos das rodovias paulistas.

Passo o trevo que acessa a Vila Embau e avisto o motel. Também avisto uma placa indicativa informando da Pousada Rural São Benedito. Para mim, foi um grande presente, pois estava achando que teria que caminhar até Cachoeira Paulista.

Muito cansado, me arrasto. Tinha como referência a Subestação de Furnas que nunca chegava. Após passar por ela, parei em um condomínio. Peço água ao porteiro e creio que tomei uns dois litros. Converso um pouco com o homem negro de sotaque carioca. Ele me tranquiliza dizendo que a pousada era logo em frente, a poucos metros. Agradeço pela água e sigo o rumo.

Chego quase morto na pousada. Sou atendido pela Dona Rosana, que estava no meu aguardo. Na placa anterior tinha um telefone e eu entrei em contato. Primeiramente, foi a mãe da proprietária que atendeu. Comunicação meio truncada. Logo a proprietária atende e tudo resolvido. Sou encaminhado para o quarto. Tiro lentamente minha roupa e deito-me a cama, nu, sujo e quase morto. Longa foi batalha para romper a inércia e ir para o chuveiro. Um calor infernal estava no dia. Tomo meu banho e após coloco-me aos afazeres domésticos: lavar roupas.

Para mim, a Dona Rosana é muito mais que uma comerciante, e sim uma mãe. Zelosa e carinhosa com o atendimento. Explicou-me que poderia pegar um ônibus até a cidade, mas desanimei. Resolvo ficar descansando. À noite, um ótimo jantar. Conversa sobre hóspedes que a cavalo pararam no local, com destino ao santuário de Nossa Senhora de Aparecida.

Sinto-me agraciado com essa senhora e a mãe dela. Troco uma conversa com um homem que pintava o portão do restaurante e a proprietária do mesmo. Ao término do jantar, um forte vento surgiu. Logo após um grande temporal. Durmo bem.

49o dia

Caminho Velho
19/outubro/2014
38,25 km percorridos
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