Dia 48

Dia 48: Passa Quatro

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 04/12/2015
Modificado pela última vez em 04/01/2016 às 20:28

Minha estada em Passa Quatro foi a mais vadia de todas. Consigo me aquietar e ficar bastante tempo sem fazer nada. Sem a agitação de rodar pela cidade em busca de alvos fotográficos.

O sábado começou assim. Tomo meu café da manhã e percebo que outro hóspede havia recém realizado a refeição. Acabo conhecendo-o. É um carioca que estava na região para fazer uma travessia na serra, de aproximadamente 100km. Conversamos, trocando informações de experiências. Eu, perante a minha longa caminhada. Ele, com a vasta experiência com travessias.

Comparando, minha mochila deveria, naquele momento, pesar uns 10 a 11kg. A dele, apresentava praticamente uns 23kg. Alimentos e equipamentos. Ele me indicou para conhecer em Paraty, a Reserva Ecológica Estadual da Juatinga. Outra pessoa que me arrependo em não pegar contato. Ele não tinha muito tempo a perder, pois precisava seguir para a montanha.

Fico na mesa do café, conversando com a Dona Doca, funcionária da pousada e literalmente um membro da família. Logo conheço a matriarca, que também veio tomar café da manhã no local: Dona Regina. Passo praticamente a manhã toda conversando com ela. Uma estimável senhora.

No meio de nossa conversa, surge a outra hóspede para tomar café. Uma paulistana, franzina e com uma presença que somente paulistanas tem. Ela me abriu a memória de Campinas. Participou como ouvinte da interlocução entre a Dona Regina e eu. Infelizmente não memorizei o nome dela. Mas pensaria muito nessa mulher ainda nos próximos dias. Ela seguiu o rumo para umas cachoeiras, de short e chinelos havaiana. E fiquei de conversa com a matriarca até próximo ao meio-dia.

Uma mulher bem à frente da respectiva geração. Gestora e administradora por via laboral, mas pianista de coração e alma. Até um CD gravado com músicas tocadas por ela eu ganho de presente. Uma história de família, filhos, amor, viuvez, novo amor, nova viuvez e novo amor. Uma bela alma e coração venusianos.

Depois da manhã vadia, resolvo sair para almoçar. Repito novamente o mesmo restaurante saudável do dia anterior. De sobremesa, volto ao hostel e pego uma piscina até umas 14h30. O céu fecha com ares de tempestade. Para o meu bem, nada de chuva. Os outros que precisavam de água tiveram que esperar mais. Tomo um banho e coloco-me a desbravar o Mundo das Miniaturas e outras ruas antes não caminhadas.

Visito internamente a igreja, fotos de árvores em flor, da Loja Maçônica, da Estação Ferroviária e casas, muitas casas. Depois, volto a parar no café para outra sessão de cafeína com pão de queijo. No início da noite, tiro fotos noturnas da cidade. Chego ao hostel e convido a paulistana para tomar uma cerveja. Ela aceitou o convite. Com o desenrolar da conversa, ficou admirada com minha viagem atual e as demais vividas por mim. Em um boteco tocado por garotas, ficamos por algumas horas a conversar. Surpreendo-me muito com similaridade física com alguém de Campinas.

A história de vida dela me sensibiliza. Moradora do Jaguaré, trabalha numa loja do shopping mais elitista de São Paulo. Na loja onde trabalha, a peça mais barata custa R$500 e a mais cara R$400.000. Algumas clientes dela fazem compras semanais em média de R$15mil a R$25mil, de “roupinhas e coisinhas básicas”. Para minha cabeça, uma total lacuna de realidades. Quando o horário comercial extrapola o horário da CPTM, o retorno a casa é por um táxi bancado pela loja. Porém, há algumas reclamações quando ocorre a apresentação de contas. Do Morumbi ao Jaguaré há um paradoxo econômico e espacial. Mãe de uma adolescente de 15 anos e deficiente visual em prol de uma doença neurológica. Eu penso na rotina pesada dela.

Lembro dos meus cinco anos vividos em São Paulo. Reflito no processo de como pessoas entram na máquina de moer carne humana, de moer sonhos e da alienação coletiva. Passa um filme e mentalmente me questiono e me coloco na pele dela. E por sabedoria, ela muito calma, não reclama de nada. Questiono-a se ela não deseja largar essa vida, essa rotina dura. Comentou que a filha dela tem tratamento psicológico com uma das melhores profissionais para cegos, no Hospital das Clínicas. E gratuitamente.

“Aonde conseguiria isso para minha filha, gratuitamente?”

Ela comentou um caso de uma visita a Livraria Cultura, no qual o segurança brutalmente chegou na menina achando que ela estava roubando o livro. Pela deficiência, ela tinha que colocar o livro literalmente rente aos olhos para poder visualizar algo. Navalhas na carne.

Bebemos, comemos, conversamos e eu controlei os meus impulsos, por motivos de força maior – hoje arrependido. Até acreditei ser melhor não pegar os contatos dela. Em 24h depois me arrependi. Essa tinha sido a segunda viagem da vida dela. A segunda possibilidade dela, com mais de 30 anos, de se dar o prazer da estrada, de conhecer um lugar novo.

Voltamos para o hostel e cada um para o seu dormitório. Um desejo de querer bem, da minha parte, reprimido por mim mesmo. Aquieto-me na cama e durmo.

48o dia

Caminho Velho
18/outubro/2014
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Localidades

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