Dia 4

Dia 4: Serro – Alvorada de Minas – Itapanhoacanga

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 05/01/2016 às 12:41

Mochila mais leve, ombros sem dor, pés ainda ferrados. Toco o rumo para Itapanhoacanga. O trecho até Alvorada de Minas é constituído por uma rodovia pavimentada sem muito trânsito de veículos, para o meu alívio.

Nesse trecho, tive o prazer de comer o último pedaço de bolo de milho dado por Roney e a Amália em Diamantina. Só faltou o saboroso café passado pela Amália. Ainda voltarei!

Na entrada de Alvorada de Minas , avisto uma farmácia. Resolvo entrar no comércio e comprar gaze, cicatrizante e esparadrapo. Meus pés necessitam urgentemente de curativos. Adentro-me ao comércio e chamo a atenção das atendentes com a minha mochila nas costas e chapéu na cabeça. Percebo um olhar misto de curiosidade e rejeição pelas moçoilas da pequena cidade. Logo avisto o possível proprietário, vestido de branco e com ares de rapazote do interior que estudou na capital. Ele vem ao meu encontro de modo simpático. Comento que necessito sanar os problemas dos meus pés. Compro o que necessito. Observo um refrigerador e pego uma garrafa de isotônico. Numa breve conversa, comento sobre minha viagem. Pago a conta e saio à rua em busca de um local para fazer o paliativo para os pés.

Há poucos metros morro acima, chego a uma rotatória com uma pracinha no centro, onde avisto uma padaria, uma loja de produtos agropecuários e dois velhos homens a conversar e gastar o tempo com memórias e prosa.

Fico com preguiça e vergonha em fazer o curativo no meio da rua. Opto em parar na padaria, para explorar um café e descanso. Entro no recinto e, tal qual aconteceu na farmácia, chamo a atenção de todos. Peço um café e sento-me à mesa. Fico a observar todo o movimento dos clientes e dos atendentes. Pessoas a comprar pães e quitutes. Reparo que o dono da padaria é jovem e muito gentil com as pessoas. Gentil de uma maneira verdadeira e não forçado como sendo uma “boa conduta de comerciante”.

Em uma mesa próxima a minha, há uma senhora negra a fazer um lanche. Ela também  faz um pedido de pães franceses “velhos”. Fito-a no rosto e percebo um carisma no olhar e na maneira de ser. Fico admirando esse simples semblante e deu-me vontade de dar-lhe um abraço. A mastigar o lanche, ela contava algumas moedas, calculando quantos pães ela poderia levar. Pela minha cabeça, passam pensamentos questionando o porquê de comprar pães velhos. Seria por serem mais baratos? Ou era um hábito de paladar criado ao longo do tempo? Fui lavar a garrafinha de água que estava com restos do whey protein. O proprietário mostrou-me a torneira da pia interna. Resolvi acertar a minha conta e a conta dos pães da senhora negra. Ela olhou para mim e agradeceu. Admiro e aprendo muito com esse modo simples e gentis. Muitas vezes são pobres de dinheiro, mas são ricas em conduta ou caráter. Mais do que muitos materialmente abonados. Bons ensinamentos do caminho.

No material do Instituto Estrada Real há uma informação desencontrada. Informa-se sobre um estabelecimento para hospedagem cadastrado chamado Pousada do Cardoso. Em Serro resolvi ligar para o número disponibilizado, com o objetivo de planejar possíveis estadas. Porém o mesmo não correspondia ao estabelecimento. Resolvi assim passar na pousada e explicar a situação. Informá-los para que entrassem em contato com o Instituto e pedissem a correção do número do telefone. Fazer uma boa ação. Porém, dei com os burros n’água. Ao entrar no estabelecimento tinha uma jovem com uma criança de colo. Possivelmente uma babá. Ela nem entendia direito o que eu estava falando. Aparentemente eu deveria estar falando alemão! Pedi para chamar o responsável e eis que apareceu uma velha obesa com cara de recalcada mal-amada. Entendam essa frase não como uma crítica preconceituosa, mas uma caracterização da infeliz pessoa que tive o desprazer de conversar em poucos minutos. Ela me encarou desconfiada e tive que abrir toda a mochila para mostrar a impressão do Instituto Estrada Real. A mal-educada virou as costas e nem menos um obrigado ela deu. Enfim, a minha parte eu fiz.

Segui o meu rumo por uma estrada tranquila e não pavimentada. Na pequena distância percorrida, me deparo com uma série de terrenos da mineradora Anglo American. Nessa rota muitos carros da prefeitura de Alvorada de Minas, indo e vindo, para cima e para baixo. Fiquei curioso! Melhor aqui nem elucubrar possibilidades obscuras.

Em um trecho alto tive contato visual com Itapanhoacanga. Lembro-me que o caminhante Ângelo, que conheci entre São Gonçalo do Rio das Pedras e Milho Verde, me indicou procurar a única hospedagem em Itapanhoacanga: a Hospedagem do Bill. Segundo recomendação do Ângelo, eu não deveria ter só um dedo de prosa, mas sim duas mãos inteiras!

Voltando ao caminho, nesse ponto no qual avistei a mancha urbana, consulto o receptor GPS e a planilha. Concluo que ainda faltam “módicos” 18km. Esse local é o entroncamento da estrada vinda de Alvorada de Minas e a MG-010. Por essa via estadual não pavimentada teria que percorrer um tanto até encontrar uma derivação à esquerda. Após um breve descanso em um ponto de ônibus empoeirado, sigo o meu rumo. Percebo que toda a vegetação lindeira a via não é verde, mas sim marrom da poeira. Senti uma forte tensão nesse segmento da MG-010. Intenso é o trânsito de picapes e caminhões de empresa de mineração. Na minha cabeça paira um receio de atropelamento, e meu nariz incomoda devido a poeira. Mantive o ritmo, usando o Ecohead como protetor de boca e nariz, e o chapéu, para o sol na cabeça. Nessas condições, sinto-me um bandido dos antigos filmes de far west.

Após árdua caminhada pela MG-010, avisto a saída à esquerda. Também percebo a necessidade de buscar água. Estou cansado e com as minhas famosas dores nos pés. Avisto uma casa simples e humilde na beira da estrada a poucos metros do entroncamento. O chão também estava “fofo” demais, pois uma pá-niveladora estava a trabalhar. Somado a água que o caminhão pipa jogava na pista para a compactação, o ato de caminhar é mais difícil.

Ao chegar mais próximo da casa, vejo que tinham dois homens trabalhando no lado de fora. Abri o portão, entrei e pedi, por gentileza, água de beber. Trocamos algumas palavras. Estamos acompanhados de bons e fiéis vira-latas. Um dos homens, vestido com uniforme de trabalho de silvicultura ou de limpeza urbana, retorna ao trabalho nos fundos da casa, com uma motosserra.

O outro homem, o Sr. Honofre, me convidou para entrar. Eu havia acabado com uma garrafa de água e estava meio zonzo de cansaço e fadiga. Ele bate a mão no sofá para tirar a poeira e estava sendo extremamente amigável e gentil ao me receber. Eu não baixei minha guarda e encontro-me receoso. Sento ao sofá e trocamos algumas ideias. Falei a ele de onde vinha e para onde ia. Basicamente ele se espantou. Comento com ele como é bom a vida do campo, criar bichos, fazer uma horta e uma roça. Acordar com os pássaros e dormir com som de sapos e pererecas. Também comento que não valeria a pena trocar tudo isso pelo falso deslumbramento das cidades grandes. Ele, diretamente, foi enfático e concordou comigo:

“Não troco a vida da roça por nada.”

Ele era magro e sem dentes na boca. Um semblante de um adulto com seus 45 a 50 anos, bem calejado pelo sol, trabalho árduo e possíveis catarses com pinga barata. Ele comenta que divide a casa com esse colega. Sua única reclamação é a falta de uma companheira. Sente-se só. Gentilmente ele me ofereceu um café. Eu recuso para não dar trabalho e não consumir algo dele. Esse foi meu grande erro. Sempre que alguém te convidar para algo nesse modo gentil, aceite e não faça desfeita!

Conversamos mais um pouco e eu fui me recuperando do cansaço. Ele me oferece novamente um café e eu recuso outra vez. Inventei uma desculpa sobre a minha necessidade de caminhar até Itapanhoacanga, dizendo que o café, nesse meu momento de fadiga, poderia acelerar o coração. Mal soube ele que não foi preciso de café para acelerar o coração. Somente as emoções vividas nesse pequeno momento, com uma pessoa estranha e pobre, que oferece o que falta para pessoas estranhas. Até eu avalio a minha própria conduta. Uma grande lição de moral.

Me despeço, agradeço muito pela água e hospitalidade. Caminho mais um quilômetro e paro à sombra de uma árvore para comer e chorar. Estático e pensativo, deixo o tempo passar. Percebo que gastei nesse momento uma meia hora, no mínimo. Estava quase morto fisicamente e emocionalmente tocado. Essa receptividade, carinho e bem querer me marcou. Devoro o sanduíche em prantos. Por vários dias, a imagem daquele homem simples, pobre e sofrido ficou na minha mente. Foi outra situação das “magias” da Estrada Real. Situações que nos aproximam do humano. Que somente mostram a nós como estamos num limiar tênue do físico e psicológico. Que todos nós somos nada e que praticamente precisamos resgatar a nossa humanidade em ajudarmos uns aos outros. Estamos sós, mas precisamos ajudar os outros, para nós mesmos sermos ajudados. Mais uma vez constato a possibilidade de ainda acreditar nas pessoas, apesar de toda a desumanidade. Só o amor nos salva dessa selva humana fria!

Me recupero um pouco das lágrimas e soluços. Pego a mochila e o bastão. As dores nos pés são menores comparados com esse aperto no peito. Sigo então o caminho para finalizar os últimos 6km aproximados até chegar em Itapanhoacanga.

Chego à comunidade e busco a Hospedagem do Bill. Após algumas perguntas e respostas com moradores, encontro o local da hospedagem. Porém, estava tudo fechado. Procuro pela campainha, nada. Bato palmas, nada. Grito, nada. Até que uma mulher a passar na rua comentou que o Bill se encontra nas proximidades e foi avisá-lo do novo hóspede. Espero meio tenso e passam-se dez minutos até que ele chegasse. Mas logo a simpatia e a hospitalidade dele quebraram a minha tensão. Após o dormitório ter sido apresentado e o meu pagamento efetuado, me pus a tomar banho e a encarar os deveres domésticos diários: lavar roupas! Um tanque, um varal e prendedores de roupa. Em 20 minutos tudo lavado e estendido. Somente no outro dia recolheria as roupas secas.

Mesmo cansado, saio para buscar uma vendinha na cidade. O Bill comentou que ainda iria demorar uns 40 minutos para o jantar. Comprei alimentos e água de coco para o outro dia e levo uma prosa com o dono. Uma revelação muito interessante vem à tona. O verdadeiro percurso da Estrada Real não passava por Alvorada de Minas. A diretriz verdadeira entre a cidade de Serro a Itapanhoacanga é a rodovia MG-010. Concluo que há a possibilidade de duas hipóteses para essa alteração do trajeto: a primeira, como a rodovia apresenta expressivo movimento, os organizadores resolveram modificar o percurso para os peregrinos passando por Alvorada de Minas; a segunda, consequência da primeira, seria tentar desenvolver o turismo na cidade. Creio que para tal, o setor de hospedagem em Alvorada de Minas necessita urgentemente de treinamentos do SEBRAE/SENAC e afins.

Saindo do mercadinho, identifico uma vendinha de frutas. Resolvo comprar uma melancia para comer algumas fatias e dividir com o povo da pousada.

Ao retornar à pousada, o jantar está servido. Comida simples, mas estupendamente saborosa. Feita pela esposa do Bill. Infelizmente não tive energia para seguir os conselhos do Ângelo e ficar a prosear com o anfitrião. Do pouco que conversamos, ele trocou a metalurgia de Betim para tocar o sonho da pousada. A esposa trabalha como professora. Lentamente eles estão a construir o que é deles.

Entrei em falência múltipla dos órgãos e dormi um merecido sono.

4o dia

Caminho dos Diamantes
04/setembro/2014
37,99 km percorridos
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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho


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Meu pernoite

  • Pousada Mariana
  • Pousada do Bill

Selfies e pessoas que encontrei

  • Despedida de Serro
  • Na MG-010 rumo a Itapanhoacanga
  • Pousada do Bill

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Fotografias