Dia 38

Dia 38: São Sebastião da Vitória – Caquende – Capela do Saco

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 02/12/2015
Modificado pela última vez em 11/04/2016 às 23:19

Recolho as roupas, arrumo minha mochila e tomo o café da manhã. Achei meio fraquinho o que tinha à mesa e resolvo seguir para o K’Britos, para uma complementação da refeição. Compro também algo de comer para a viagem.

O caminho que percorro é tranquilo. O que me chama a atenção são algumas grandes voçorocas. Paro próximo a linha férrea, em uma infraestrutura abandonada, possivelmente do período da construção via.

Cruzo por várias glebas de lavoura, a maioria seca devido à estiagem. Começo a avistar a barragem da UHE de Camargos. As extensas margens expostas também denunciam o estrago que a estiagem está fazendo por toda essa região. Nesse trecho há uma questão para o viajante se atentar. A travessia de balsa entre Caquende e Capela do Saco, com os seguintes horários: das 7h às 12h e das 14h às 17h.

Chego em Caquende e peço informações a duas pessoas. Acho que falei em alemão. Sigo para a beira da represa às 13h e no local descubro o horário da travessia. Aguardo por uma hora. Um casal em um carro. O motorista indignado e estressado por ter que esperar. Se soubessem aproveitar o tempo, iriam fazer “amor a sertaneja”. No mínimo são casados há anos.

A travessia é curta, porém, muito divertida. Basta prestar atenção na engenhoca da balsa. Não me recordo quem comentou comigo sobre a balsa, dizendo que a roda d’água joga mais água para cima do que transfere em propulsão. Não respeitando preceitos de Engenharia Naval e com alguns litros de diesel demasiadamente gastos, atravessamos para a outra margem.

O casal estressado some. Eu vou à busca da Pousada Reis para me hospedar. Facilmente encontro o local, mas não encontro ninguém para atender. Toco a campainha. Me informam para dar a volta na quadra e chamar na cerca de divisa nos fundos, pois o proprietário passa tempo na horta. Fui e nada.

A vila vazia. O temor me bate à porta. Tento ligar, mas não deu certo. Paro na praça em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Troco as botas pelos chinelos. Passo um tempo e consigo uma informação útil. No prédio vermelho abaixo da praça, há um bar e o proprietário também oferece hospedagem. Quando passei estava fechada. No exato momento que obtive essa informação, o balseiro atravessou, com um automóvel com a Dona Fátima e o Sr. Raimundo. O casal é proprietário da Pizzaria, Bar e Restaurante Fama.

Resolvo com eles a questão sobre minha hospedagem. A vadiagem será por aqui, investindo em conversas e tirando algumas fotos do distrito. Para mim, a hospedagem do casal estava ótima. Cama e banheiro limpos. Conversamos muito. O Sr. Raimundo comentou que eu deveria conversar com uma pessoa ilustre da comunidade, que logo logo apareceria no bar.

Ainda não tinha me acomodado no quarto. Estava lá tranquilamente apreciando o simples fato de não fazer nada. Nisso eis que surge o Sr. Zico, 83 anos e muita história. Contou como era a vida no passado. Produzia-se tudo no sítio: açúcar, mandioca, milho, feijão, vacas, porcos e galinhas. Precisava somente da cidade: sal, querosene e café. Comentou como Capela do Saco tinha sido abandonada pelos governantes de Carrancas por “incompatibilidade” política. E por isso o lugar não prosperou. Para ele, a vida no local é boa. E que o mundo está muito diferente! Todo orgulhoso, veio a me falar de uma entrevista por ele concedida a uma revista muito famosa. A revista era tão famosa, mas tão famosa que:

“O meu nome foi parar em mais 40 países e 250 cidades.”

A temática da entrevista era a Estrada Real. Ele comenta comigo que iria para casa, buscar a revista. Fiquei curioso.

“Será alguma revista alemã?”

Peço licença e dirijo-me ao quarto, que estava pronto. Tomo banho e me arrumo. Resolvo dar uma volta na cidade para tirar fotos e tive sorte. Vi a porta da igreja aberta e corro para lá. Tinha um jovem vistoriando a capela para o próprio casamento. Ele, bestificado com a capela. Não que não fosse bela, mas há tantas mais belas em Minas Gerais. E o sotaque dele era “mineirês”. Creio que não conhecia direito o próprio Estado. A igreja tinha algo negativo. É forte o odor de mofo. Teria que queimar muita mirra para estar apta a um casamento.

Tiro as fotos e retorno para o restaurante da pousada. Entro e observo o Sr. Zico com a revista em mãos. Vejo a capa. Era a Revista Viagem, número 6, de Junho 2003. Ele abre e leio a reportagem. Era sobre um pequeno segmento da Estrada Real, entre Tiradentes a Carrancas. Na localidade o entrevistaram. Até aí tudo bem. Quando acabo de ler, devolvo a revista. Ele vira na capa inferior e explicou com ele estava famoso em tantos lugares. Havia um anúncio publicitário da American Airlines, com a imagem de uma aeronave e um slogan:

“… agora conectando o Brasil (?) a mais de 40 países e 250 cidades.”

Algo mais ou menos assim. Faço minhas reflexões mentais e engulo o riso. Ajudo-o a alimentar a ilusão, dando-lhe os parabéns. Sinceramente, foi uma ótima experiência.

À noite, o jantar foi um ótimo “prato-feito”. Troco prosa com uns trabalhadores de construção civil que estavam atarefados numa casa próxima. Alguns deles tinham voltado de uma fracassada pescaria noturna no reservatório.

Fui dormir feliz.

38o dia

Caminho Velho
08/outubro/2014
25,34 km percorridos
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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho

Minhas refeições

  • Pizzaria, Bar e Restaurante Fama

Meu pernoite

  • Pousada Nova Vitória
  • Pousada Reis
  • Pizzaria, Bar e Restaurante Fama

Selfies e pessoas que encontrei

  • Fátima e Raimundo – Capela do Saco
  • Sr. Zico

Galeria no Panoramio


Fotografias