Dia 25

Dia 25: Santo Antônio do Leite – Engenheiro Correa

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 29/11/2015
Modificado pela última vez em 11/04/2016 às 21:44

Acordo, preparo-me, mas não estou desesperadamente com fome.

Também não tinha pressa, pois a caminhada para Engenheiro Correa seria curta.

Essa seria uma outra etapa complicada da viagem. O Marconi comentou que na localidade de Miguel Burnier, ponto após Engenheiro Correa, está totalmente “dizimado” pela Gerdau. Uma grande lavra está sendo explorada pela empresa. A pequena vila, direta ou indiretamente, foi engolida.

Assim, constatava-se que entre Santo Antônio do Leite a Congonhas seria necessária uma pernoite, sendo descartada a localidade de Miguel Burnier. Descubro em Santo Antônio do Leite a existência de uma hospedagem no distrito de Engenheiro Correa. Assim, aliviei minha preocupação e saberia o local da meu novo pernoite.

Resolvo então conversar com o Sr. Alexandre. Aposentado da rede ferroviária, católico fervoroso e pessoa moralmente reta. Com mais tempo foi me mostrando tudo da pousada e os planos que pretendia na ampliação da cozinha e do refeitório. Sua esposa ainda trabalha. Filhos estudam. Percebe-se uma família muito unida.

Sugiro dicas a ele, para montar tarifas diferenciadas para peregrinos da Estrada Real ou do Caminho Religioso da Estrada Real (CRER). Oferecer quartos compartilhados como as de um hostel. Ele gostou da ideia. Ficou pensativo. O papo foi tão bom que parti da pousada às 10h45.

Sigo para a padaria para um lanche-almoço. Obviamente converso um pouco com o filho do Mauro.

Início da viagem às 12h30. Às 14h30 me encontro na pousada em Engenheiro CorreaPousada, Bar e Restaurante Porão Casa Velha, de banho tomado e lavando minhas roupas. O sol, um belo varal e roupas acumuladas. Não teria muita escapatória da tarefa. Gostei da pousada. Os quartos são simples, mas limpos. Sempre opto pelos mais baratos. Muitas vezes com banheiro coletivo. Era o único hospede. O local do restaurante é relativamente grande para um lugar pequeno. Foi uma ótima escolha. Porém, esse estabelecimento não está nas informações do Instituto Estrada Real e o guia de cicloturismo do Marconi.

Após os afazeres domésticos resolvo dar uma volta na comunidade. Dirijo-me a antiga estação ferroviária e ao descer a rua que dá acesso a antiga linha desativada, escuto uma mãe brigando e xingando o próprio filho pequeno. É lamentável saber que pessoas “escrotas” geralmente se reproduzem também. Tiro fotos das ruínas e da caixa d’água para a caldeira do vapor.

Retorno à rua principal, tirando fotos das casas e da igreja. Nessa caminhada, procuro um local para ficar à toa. Descubro uma vendinha, tipo mercado de secos e molhados. Gostei muito do ambiente. Vi pessoas vindo comprar linguiça, entregadores de refrigerante, ônibus de funcionários da Gerdau chegando e fazendo lanche, um vendedor de queijo e leite chegando a cavalo com as entregas, um velho morador da cidade, seu chapéu de palha e o modo rico de ser caipira. Essa vivência é muito boa.

Fiz amizade proseando com as atendentes do balcão e o casal proprietário do estabelecimento comercial. Provei um sanduíche de queijo do cavaleiro. Muito bom. Rimos muito, isto é, fiz as balconistas rirem. Uma certa altura entramos numa conversa sobre casar. As mulheres de lá com aquela visão de que se:

“…aos 25 anos não tiver casado, ficou para titia.”

Eu cheguei com minha visão mais “modernizada” da vida independente das grandes cidades. Perguntei-lhe:

“Casar por casar? Casar para que? Ter um homem, barrigudo, bêbado e peidando ao seu lado? Para lavar as cuecas sujas do marido?”

O “lavar as cuecas sujas” ficou marcado com muitas gargalhadas. Acho que elas nunca tiveram alguém próximo, ao vivo e a cores, que expressasse esse sentimento feminino oprimido nesses pequenos rincões de nosso Brasil.

Faço compras de suprimentos para a caminhada do dia seguinte. Pensava:

“Amanhã será a grande e temida caminhada, passando por Miguel Burnier.”

Depois de 25 dias, perco a unha do dedinho do meu pé esquerdo.

A janta foi simples e boa. Recolho-me ao dormitório e durmo.

25o dia

Caminho Velho
25/setembro/2014
10,97 km percorridos
Localidades
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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho

Minhas refeições

  • Pousada, Bar e Restaurante Porão Casa Velha

Meu pernoite

  • Pousada, Bar e Restaurante Porão Casa Velha

Selfies e pessoas que encontrei

  • Povo de Engenheiro Correa

Fotografias