Dia 23

Dia 23: Ouro Preto – São Bartolomeu

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 29/11/2015
Modificado pela última vez em 05/01/2016 às 17:39

Acordo pela manhã e tive problemas para conseguir acordar alguém da casa e recuperar o meu saco estanque. Pego minhas tralhas e vou tomar café da manhã na padaria. Hoje começo o Caminho Velho.

Tenho também a expectativa de São Bartolomeu para conhecer o tão indicado sino de madeira, existente na Igreja de São Bartolomeu . Dizem que somente existem duas igrejas no mundo com sino de madeira. Essa em São Bartolomeu e outra na França.

Passo no banco para ter alguma grana no bolso. Subir, subir e subir. Esse foi o padrão para transpor o divisor de águas para o vale do Rio das Velhas.

Nesse caminho, tomei uma decisão muito assertiva. No traçado da Estrada Real, informada pelo Instituto Estrada Real, há nessa serra um antigo caminho, pertencente à rota oficial. O Caminho do Chafariz, de Dom Rodrigo. Por ele não passam automóveis.

O Marconi desviou desse caminho quando realizou a última viagem ciclística a Paraty. No local da entrada da trilha, ele encontrou uns motociclistas, que o advertiram da dificuldade em transitar com a bike.

Nos meus planos, estava certo em realizar também o desvio. Assim que encontrei a entrada da trilha, observei o colchete da entrada e meu coração resolveu que deveria encarar e percorrer o Caminho do Chafariz. Na minha humilde opinião, foi o segundo mais belo trecho percorrido na Estrada Real. Nesse caminho há uma antiga e inoperante bica d’água, denominada chafariz, que servia para suprir de água os animais e viajantes. Datada de 1782.

Até a chegada ao chafariz, percebe-se que, para percorrer o caminho, somente é possível estando a pé. Estando de bicicleta ocorreria muito enroscamento dos alforges laterais e superior, pedivela e pedais com pedras e o próprio talude da trilha. Isso mesmo! O caminho erodiu tanto com as chuvas e outras ações que se tornou estreito, a ponto de quem está a pé ter que caminhar com os pés alinhados e apenas uma pequena abertura do compasso das pernas. Por muitas vezes cheguei a enroscar a mochila em trechos críticos de pedras e árvores. Mesmo descendo, o caminho somente de mountain bike, sem bagagem, ter-se-ia longas extensões de “empurra bike” morro abaixo. Moto: esqueça! Cavalo: complicado, diria para esquecer também.

Sigo mais um pouco e encontro um marco e mirante para o vale do Rio das Velhas. Fantástica visão. Sigo mais um pouco pela encosta e inicio a descida. O caminho fica mais estreito com os taludes que me encobrem, referente ao nível predominante do terreno. Felizmente, tudo ocorreu tranquilamente, sem nenhum escorregão, torção de pé ou queda.

Chego a São Bartolomeu e busco a Pousada São Bartolomeu. Ao entrar no distrito fico surpreso, pois é outra viagem no tempo. A igreja e as casinhas coloniais. Encontro a pousada, mas toco campainha, bato palmas,grito, e nada de resposta.

Observo mais à frente a Capela das Mercês aberta. Resolvo ir lá para visitar, sendo uma raridade encontrar igrejas ou capelas abertas. Depois descubro que são poucas as vezes que a capelinha abre ao longo do ano. Acertei na escolha em visitá-la.

Nesse dia, a capela estava sendo preparada para o “Rosário dos Homens”. Pelo que entendi, uma novena onde os homens rezam. As carolas que estavam a trabalhar me olharam com desdém. É o que digo:

“Se Cristo voltasse hoje, muitos que se dizem fiéis dele o expulsariam dos templos.”

Santíssima hipocrisia! Para piorar, fiz uma pergunta sobre o pessoal da pousada. Acho que as velhas só falam latim, pois demoraram para responder e tive que ser, digamos: ríspido. Obtive alguma informação e fui embora.

Ao retornar à hospedagem, percebo um barulho numa edificação que presumo ser a lavanderia. Chamo e sou atendido. Não havia feito a reserva, mas como é terça-feira foi fácil conseguir a vaga.

Para quebrar o gelo e o receio de um andarilho libertino, fora dos padrões da “boiada” com sua longa barba e cabelo, sempre efetuei o pagamento no ato. Assim, quebra-se aquele receio de calote, fuga ou de ser um bandido, por exemplo.

A Cida foi quem me recebeu. Indicou o quarto e pus-me a tomar banho. Pedi emprestado o tanque e lavei minha roupa. Na cozinha, ela me ofereceu café com bolo de laranja e queijo. Foi um ótimo lanche da tarde. Recebi dela uma indicação de como conseguir visitar o tão famoso sino de madeira:

“Procure a Dona Rosângela, numa casa amarela ao lado da Igreja!”

Fui lá, encontrei a Rosângela, me apresentei e fiz o pedido. Sem nenhuma ressalva ela pegou a chave da igreja e fomos visitá-la. Ela mostra os altares principais e laterais. Também aponta as pinturas de teto. Subimos para o mezanino e entramos no campanário. E eis que tenho o primeiro contato com o sino maciço de madeira. Pena que, em se tratando de Brasil, roubaram o badalo, que era de prata, segundo a Rosângela.

O sino somente tocava em datas específicas, tais como no falecimento de alguém importante. Fiquei muito contente com a visita. Saímos da igreja e conversamos um pouco. Agradeci a predisposição. Segui a caminhar pela comunidade, tirando muitas fotos.

Observo que algumas casas há oratórios na parte externa e superior, com portinhas. Em outras casas, havia imagens do divino Espírito Santo pregadas nas portas principais.

Paro num pequeno comércio cuja placa anunciava “café”. Tudo no escuro, até surgir um menino esperto vindo da rua. Chamou por mamãe e eis que uma bela ruiva, com cara de forasteira, aparece para me atender. Infelizmente não havia café. Porém, optei em adquirir um doce de laranja-cascão para os próximos dias.

Retorno ao hotel e a Cida resolve o meu problema do café. Experimento um pedaço da laranja-cascão, acompanhado do pretinho básico.

À noite, a Cida prepara uma ótima janta.

Não consegui estímulo para presenciar o “Rosário dos Homens”. Escuto fogos de artifício do evento religioso, deito na cama e durmo.

23o dia

Caminho Velho
23/setembro/2014
22,84 km percorridos
Localidades
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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho

Minhas refeições

  • Café Uaimii

Meu pernoite

  • Pousada São Bartolomeu

Coisas interessantes que vi


Selfies e pessoas que encontrei

  • Dona Rosângela

Galeria no Panoramio


Fotografias