Dia 2

Dia 2: São Gonçalo do Rio das Pedras – Milho Verde – Três Barras – Serro

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 04/01/2016 às 19:45

Acordo, recolho as roupas no varal, arrumo minha mochila e tomo um ótimo café da manhã. Sinto a Dona Anna preocupada com o calor que eu viria a passar no caminho. Também comentou comigo sobre sua pequena viagem, nesse mesmo dia, para a cidade de Serro. Possivelmente nos encontraríamos no caminho.

Durante a refeição, conheço o filho da anfitriã. Me despeço e sigo o meu rumo.

Realizo um pequeno city tour por São Gonçalo do Rio das Pedras. Tiro fotos da Igreja Matriz de São Gonçalo, das casas coloniais, de algumas ruas e do comércio. Também tiro fotos georreferenciadas do Receptivo Familiar, com objetivo de auxiliar futuros hóspedes na questão localização.

Tomo meu rumo a Serro. Lembro-me dos conselhos da Amália, Roney e Marconi fico com uma grande dúvida:

“Paro ou não paro em Milho Verde para me hospedar?”

Apenas 5 km separam São Gonçalo do Rio das Pedras e Milho Verde. Muitos atrativos naturais – mais precisamente cachoeiras – são mandatórios a serem visitados nesse outro distrito de Serro. Porém, não queria ter um custo a mais. Tomei uma decisão nessa viagem em abrir mão da visitação de cachoeiras fora da rota. Uma cachoeira a 3 km da rota iria consumir o dobro da distância e algum tempo para o trânsito e a visitação. Sendo assim, cachoeiras somente se fossem a beira do caminho.

Chegando em Milho Verde, paro em um bar em anexo a uma área de camping para pegar uma água. O estabelecimento localiza-se anteriormente na parte central histórica, para quem vem de São Gonçalo do Rio das Pedras. Muitas placas de pousadas e restaurantes com comida mineira. Realizo um breve city tour pela comunidade e descubro a bela Igreja do Rosário. Candidata para a celebração religiosa de um casamento. Perambulo pelo local, tiro fotos, conheço superficialmente e resolvo seguir em frente.

Parto então para a viagem. Caminho poucos minutos e, logo após sair da área urbana da comunidade, avisto algo inesperado no sentido contrário. Naquele estradão empoeirado, há uma identificação de espécies: outro caminhante. Era o Ângelo, de Belo Horizonte. Ele percorria a rota Ouro Preto a Diamantina. Na pequena conversa que temos, ele comenta fatos interessantes ocorridos na caminhada dele:

“Muitas pessoas no caminho irão te oferecer carona.”

(O que realmente aconteceu)

“Por muitas vezes haverá vontade de pegar essa carona. Seja persistente e não pegue, como eu fiz.”

(Eu também não o fiz!)

“Tem uma aura mágica nesse caminho da Estrada Real. Coisas que só acontecem para quem está por esse caminho. Vou te contar o que aconteceu. Estava eu caminhando em um trecho, com muito sol e calor na cabeça. Ao longe avisto algo no chão na beira da estrada. Quando me aproximo, percebo que era um saco de gelo com uma garrafa do [veneno de açúcar de cor preta]. Peguei-a e bebi. Possivelmente alguém me viu e quis retribuir com uma ajuda. E estou aqui, sem nenhum efeito colateral.”

Passo a ele alguma informação sobre esse último trecho, principalmente perante os desníveis para atingir a cota do Rio Jequitinhonha. Ele ficou eufórico com a conclusão da missão particular e solitária. Chegar a Diamantina nessa terça-feira é a meta desse caminhante mineiro. Percebo a surpresa e a admiração dele perante o fato do meu destino ser Paraty, no Rio de Janeiro, ao realizar o Caminho dos Diamantes e o Caminho Velho . Nos despedimos, porém, cometi o grande erro em não pegar algum contato dele. Hoje me arrependo. Refleti um pouco:

“No segundo dia dei de cara com um caminhante!”

Acreditei que iria encontrar mais peregrinos e viajantes a pé, de bicicleta, moto, jipe ou a cavalo. Doce ilusão. Foram poucas as pessoas a viajarem nesses caminhos. Infelizmente, a grande massa neófita tem como objetivo explorar primeiramente o Caminho de Santiago de Compostela. Creio que dá mais glamour andar por terras francesas e espanholas, comparando-se às mineiras!

Após a conversa, sigo a caminhada e troco a pista de chão empoeirado para um asfalto quente e nervoso. Paro numa entrada de estrada, que se destina a uma cachoeira, com o objetivo de lanchar. Nas proximidades, vacas curiosas vêm ao meu encontro. Troco algumas palavras com as novas amigas, admiro o olhar bovino e o temor que essa espécie tem ao carinho alheio. Fogem ariscas à minha aproximação. Descanso um pouco e sigo o rumo.

Desse ponto até a cidade de Serro, eu resumo em algumas palavras: asfalto quente, sol forte, mochila pesada, dores nos ombros e a primeira bolha nos pés.

Lembro-me do comentário de Dona Anna sobre a minha ida à cidade de Serro. Estava na expectativa em saber se iria encontrá-la. Quem saberá?

A caminhada não rendeu muito devido ao calor e as dores nos ombros e resolvo perto do meio dia parar em uma sombra de uma árvore junto a uma cerca. Creio que fiquei parado por uns 40 minutos, a descansar e a recuperar o fôlego.

No sentido Serro a São Gonçalo, passa um VW Gol e quem eu vejo na janela do carona: a Dona Anna. Ela, preocupada comigo devido ao sol forte, quis saber como eu estava. Nas mãos, uma sacola com duas garrafinhas de água, que entrega a mim. Fico feliz pela consideração e lembrança. Quis pagá-la, mas ela recusa. Comenta comigo que é uma ajuda para a minha viagem nesse calor. Nos despedimos e um sentimento ótimo e inesperado me toma a alma. Acostumado com o modus vivendi em grandes centros urbanos nesses últimos 14 anos de minha vida, percebi muita humanidade nessa simples atitude. Me faz refletir muitas ações minhas realizadas e, principalmente, não realizadas com o próximo desconhecido. Penso:

“Não é que o Ângelo estava certo? Essa Estrada Real é mágica mesmo!”

Esses mineiros. Porém, em segundos lembro-me que a Dona Anna é suíça e o carro, cujo outra mulher estava ao volante, tinha placa de São Paulo. Então corrigindo, essa vida do interior das Minas Gerais torna as pessoas mais humanas.

Há um código intrínseco para quem habita lugares remotos e inóspitos. Percebo muito esse código em habitantes ribeirinhos ou em quem viva ou sobreviva da navegação, por exemplo. Esse código, muitas vezes não percebido por urbanoides que escolhem realizar alguma aventura tal como essa, chama-se solidariedade. Comece a cumprimentar qualquer indivíduo que transite pelo caminho, no sentido oposto. Pode estar a cavalo, a trator, ou motorizado. Nunca saberemos quando essa pessoa irá nos auxiliar em alguma emergência. Nos rios, é igual. Estando de barco a motor ou caiaque, nunca se sabe quem poderá auxiliá-lo em caso de alguma pane mecânica ou de fadiga, ou ainda fornecerá um prato de comida. E sempre, sempre que alguém esteja parado, pergunte se há necessidade de ajuda. A solidariedade é uma questão de sobrevivência nessas ocasiões.

Sigo o meu caminho e logo chego à pequena comunidade de Três Barras. Observo à minha esquerda uma pequena igreja histórica à beira da rodovia. Sigo a descer e observo na baixada uma ponte. Ao me aproximar, descubro que é o Rio Jequitinhonha. Logo após passar pela ponte, avisto um bar e mercearia também à minha esquerda. Resolvo parar para comprar mais água e comer um picolé. Converso um pouco com as pessoas que estavam no estabelecimento, que me identificaram com um caminhante maluco. Depois desse breve descanso, sigo novamente o rumo da caminhada.

As dores nos ombros e nos pés estão fortes. Desde a minha partida de Diamantina, acabei não calçando dois pares de meias sobrepostos, umas sobre as outras. Alguns caminhantes usam desse artifício para evitar ou retardar o aparecimento de bolhas. Talvez tivesse sido mais prudente ter feito isso. Agora é tarde! As bolhas estão em meus pés.

A uns 6 km antes de chegar a Serro, paro em uma pequena capela na beira da estrada. Tinha uma escadaria e sinto dificuldades para subi-la, devido às dores nos pés e nos ombros. Sinto um medo, nesse momento, de apresentar alguma crise de lombalgia.

“Como faria para ser socorrido?”

Fico imprestável, imóvel e com fortes dores. Para essa caminhada, estava utilizando uma cinta estabilizadora de lombar. E ela funcionou bem até o término da caminhada, sem me permitir ter nenhuma crise.

Faço o meu lanche da tarde no local. Me atenho aos pequenos detalhes da pequena capela. Havia ainda alguns enfeites e bandeirolas depreciadas com a intempérie. A escada não apresentava padrão na altura dos degraus e reparo que muitas imagens dos santos estão decapitadas. Ao longo da viagem, esse fato é muito comum. Lembro do noticiário televisivo que assisti no período, a comentar sobre capelas na área rural do sul de Minas Gerais a serem queimadas e terem uma cruz de sal grosso em frente da porta de entrada. Penso comigo:

“Será que iniciou-se a guerra santa?”

Foi extremamente árduo e dificultoso quebrar a inércia do corpo e colocar-me de volta na estrada. Porém, não há outra escolha e à estrada novamente retorno. Chego à cidade de Serro me arrastando pela dor nos ombros, pés, dedão e dedinho do pé esquerdo. Sinto que a situação está crítica.

Ao ter que subir uma das últimas ladeiras antes do acesso rodoviário a cidade de Serro, bem em frente a uma empresa de laticínios, xingo muito. Faço uma autorreflexão e comparo a situação a quando comecei a remar com meu caiaque Neo, no Lago Paranoá em Brasília. Curto, mas com uma boca (largura) grande. Ao remar com vento e marolas, o desempenho que não era dos melhores devido às questões hidrodinâmicas do equipamento, piorava mais ainda. Eu costumava a me irritar e perder as estribeiras. Xingava, “bestemava”, reclamava, brigava com as ondas e com o vento. Tudo em vão, pois somos pequenos em relação às forças superiores da natureza.

Nessa situação da caminhada, subindo o acesso rodoviário a resmungar, avistei em minha frente, uma mulher negra com uma criança. Notei o modo tranquilo dela caminhar e a subir a ladeira, sem ofegar. Levei um choque de realidade e tive a mesma lição da remada no lago:

“Não adianta reclamar. O morro e a subida estão aí. Você tem que se adequar ao local e ao ambiente. Não adianta explodir na velocidade, pois irás se machucar e cansar em demasia. Siga o ritmo que será imposto pela própria topografia e mantenha-se constante. Nos trechos mais íngremes, faça como aquela senhora: ziguezagues!”

Logo após, caminho mais sobre asfalto até entrar na área urbana da cidade. Na condição “arrastar o esqueleto”, encontro um mercadinho no qual resolvo novamente parar. Acabo optando em beber “o veneno de açúcar de cor preta”. As pessoas me olham curiosas. O dia está chegando ao fim. Encontro-me sem forças para buscar uma hospedagem, mas forço o ânimo, pois uma cama seria a minha cura. Tomei a decisão em entrar e ficar na primeira hospedagem que encontrasse no caminho. Sai do mercadinho e caminho para a parte central.

Observo adolescentes a voltar da escola. A cidade fica mais densa, mas não observo nada de traços históricos. Constato que a cidade antiga fica morro abaixo. Em uma rua movimentada, faço uma nova parada, agora em uma padaria. Café e isotônico. Devido às ladeiras, resolvi não buscar hospedagem na parte baixa. Evitar a fadiga das caminhadas.

Encontro a Pousada Mariana, por R$60 a diária. Ponto positivo: um restaurante em frente com comida caseira. Resolvo ficar dois dias para descansar bem, despachar alguns excessos de barras de suplementos para Mariana.

Literalmente, percebo que esse foi o trecho mais difícil que percorri em toda a Estrada Real. Lembrei muito do Marconi preocupado com o peso da minha mochila.

Em mais uma etapa passada, o sentimento aflora ao peito e as lágrimas vieram aos olhos novamente. Banho e janta merecidos. E cama para o descanso.

2o dia

Caminho dos Diamantes
02/setembro/2014
32,61 km percorridos
Localidades
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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho


Trechos relacionados

Minhas refeições


Meu pernoite

  • Pousada Refúgio Cinco Amigos
  • Receptivo Familiar
  • Pousada Mariana

Coisas interessantes que vi


Selfies e pessoas que encontrei

  • Partida de São Gonçalo do Rio das Pedras
  • Chegada em Milho Verde
  • Entre Milho Verde e Serro

Galeria no Panoramio


Fotografias