Mariana noturna

Dia 19: Mariana

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 11/01/2016 às 19:00

O café da manhã é bem simples.

Resolvo investir R$28 para visitar a Igreja da Sé e assistir à apresentação de órgão de tubos Arp Schnitger, manufaturado por um organeiro luterano de Hamburgo, provavelmente em 1701. Permaneceu o mesmo em Portugal e em 1753 foi instalado em uma varanda na igreja projetada e construída por nada mais nada menos que o Sr. Manuel Francisco Lisboa, pai do Aleijadinho. A riqueza dos detalhes e do instrumento são ímpares. Facilmente investe-se um bom tempo admirando sua beleza, mesmo sem um músico para tocá-lo. Na Igreja da Sé, facilmente pode-se ficar um dia inteiro, mesmo sem precisar rezar.

Esse belo instrumento foi tocado pela Sra. Josinéia Godinho. Uma organista oficial da Igreja da Sé, paulistana, negra, elegante, com cursos e reconhecimento na Alemanha e mestrado em música. No programa peças dos séculos XVI a XVIII: Muffat, Kellner, Krebs, Marcello e Bach. O órgão tocado torna-se muito mais belo. Tivemos uma aula referente às músicas tocadas e sobre o próprio instrumento. Como funcionava o mecanismo do fole de ar e como atualmente está adaptado com um pequeno compressor.

Após a apresentação, as portas da igreja reabriram para visitação. Acabei caindo no conto do vigário. Um indivíduo intitulando-se “guia” me questionou se eu gostaria de explicações sobre o tema. Aceitei e comecei um tour pela catedral. Nos moldes de qualquer cidade histórica há esses guias “papagaios”, que tem um texto todo decorado. Não são historiadores e nem antropólogos. Qualquer pergunta diferente do contexto deles, perdem-se. No final ele quis me cobrar R$20 pelo tour. Nem pensava que até o valor seria tabelado. Só tinha R$7 na carteira  e foi o que paguei a ele.

Como já era passado do meio-dia estava na hora de encontrar um canto para almoçar. Encontro um restaurante por quilo ao lado da praça da Igreja da Sé. Comidinha boa, preço mais em conta e lotadaço! Retorno ao hotel e pego minhas roupas sujas para encaminhar a uma lavanderia. Consigo uma a três quarteirões do hotel e prazo de entrega para o dia seguinte.

Ruas fechadas para o trânsito de veículos. Alguns moradores acham um absurdo isso. Percebi que o trânsito de veículos na histórica Mariana é muito intenso. Sou radical e creio que todo o quadrilátero histórico deveria ser fechado ao trânsito.

“Cidade é para pessoas e não para automóveis!”

É patológica essa fascinação que o brasileiro tem com os veículos.

Tenho em mãos um pequeno mapa turístico. Em cada cidade recolho esse material, pois é extremamente útil para as vadiagens do conhecimento. São doze as igrejas e capelas. Anexo a Igreja da Sé, visito o Museu de Arte Sacra. Passo rapidamente por ele, pois para ficar vendo batina alheia tem que ser muito sarcástico!

Também tento buscar alguma informação pertinente a mapas antigos da Estrada Real e demais rotas coloniais. Visito a Cúria e a Casa Setecentista. Nada. Somente indicações de que deveria tentar algo no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, e na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Visito nessa sexta à tarde os pontos mais centrais, deixando os periféricos para o sábado. No final do dia paro em um bar – Ponto Certo Bar – em frente à Praça Gomes Freire, próximo ao hotel. Tomo uma cerveja observando o movimento de pessoas. Comentaram que o feijão tropeiro da cozinheira é excelente. Experimentei. Os frequentadores variam desde família a pessoas alternativas.

A rua fechada para a prova era um campo minado para as crianças brincarem. Rolou uma bateria noturna do Iron Biker 2014 e o local do bar era estratégico. Dava para curtir uma descida de escadarias sobre a magrela. Troco ideias com um casal e um amigo deles. Me divirto com os respectivos filhos.

O amigo do casal ficou ensandecido com a minha viagem. Me apresentava a todos comentando do meu feito. Dava para sentir que no fundo ele queria estar no meu lugar, vivendo isso. Mas sabe como é: emprego formal, Pensão Alimentícia para a ex-mulher, pagar boleto do financiamento do Civic e demais correntes da vida adulta.

Curto um pouco mais a prova, me despeço, pago minha conta e vou verificar o pódio da etapa noturna. Logo após, resolvo percorrer um city tour noturno. Repito a experiência de fotos noturnas que realizei em Diamantina. À noite, a arquitetura colonial mostra um charme ímpar. Casas, casarios, igrejas e luminárias. Sombras, chibatadas e fantasmas. Mariana e Ouro Preto estão inseridas no limiar do romantismo e o sofrimento.

Volto para a cafeteria. De quinta-feira para sexta-feira, ocorreu uma mudança na cafeteria. Ao entrar, vi que estavam a colar um adesivo em um espelho. Li e concordei em número, gênero e grau. Era uma tabela de preços:

“(a) Bom dia, por  favor um café: R$3;

(b) Por  favor um café: R$4;

(c) Um café: R$5.”

Após ingerir a cafeína, hotel. Na sala de estar do hotel havia o único ponto de wi-fi. Sento no sofá e me conecto com o mundo virtual. No local tinha um homem assistindo TV. Era o Bocão. De Pirapora, Minas Gerais. Segurança do Fórum. Trocamos algumas ideias e proseamos. Falou que no sábado viria me procurar para irmos a um bar no qual a comida é muito boa.

Me despedi e fui dormir.

19o dia

Caminho dos Diamantes
19/setembro/2014
0 km percorridos
Localidades

Todos os trechos

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Caminho dos Diamantes
Caminho Velho


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Minhas refeições

  • Bar do Carlão
  • Ponto Certo
  • Chantilly Confeitaria

Meu pernoite

  • Hotel Central

Coisas interessantes que vi