Dia 17

Dia 17: Catas Altas – Morro d’Água Quente – Santa Rita Durão – Bento Rodrigues – Camargos

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 04/01/2016 às 20:00

A expectativa de finalizar o Caminho dos Diamantes é grande. Falta pouca coisa. Os pés não estão bem. Dor constante. Pomadas, curativos, antibiótico, “meias duplas”, faixas. Mas a dor não é amenizada. Sinto que perderei unhas dos pés. Contudo, sigo feliz o meu caminho.

Estava um pouco apreensivo, pois, apesar de verificar na fase de planejamento a existência de alguns distritos por esse trecho, ocorre também a necessidade de transpor áreas ermas e com forte presença das mineradoras.

Parto de Catas Altas por um caminho bem empoeirado. A fumaça da queimada ainda é vista. Ouço os estrondos das detonações nas lavras. Como diria um velho amigo engenheiro naval de São Paulo:

“Rafael, eu não consigo acreditar e saber o que no mundo será feito com tanto consumo de minério de ferro e soja? É uma desgraça!”

O consumo é irracional e insustentável. A recuperação de toda essa degradação é uma falácia!

Logo chego em Morro da Água Quente. Uma comunidade que diariamente convive ao som das detonações frenéticas. É pior do que casal libidinoso ou casal em discussão! Por falar em casal, vi um de velhinhos de mãos dadas andando na rua. Não perdi a oportunidade de registrar fotograficamente a beleza deles.

O local apresenta umas casinhas e uma igrejinha interessante – Senhor do Bonfim. Saio da área urbana e o deslocamento é realizado pela MG-129.

Antes de encarar o asfalto, paro em um restaurante/lanchonete no trevo e tomo um belo suco de laranja e um isotônico. Ao sair do local, eis que sou seguido por um simpático vira-lata. Ouvi várias histórias de cães que escolhem pessoas e que se animam com os andarilhos. Durante a viagem, muitos me perguntaram se tive problemas com ataques de cães ou se algum tinha me seguido como fiel amigo. Creio que o dia seria esse. Fiquei tenso, pois na rodovia havia muito tráfego de caminhões. Gritei contra ele. Recuava mas voltava. Chutava uma pedra no sentido dele. Recuava, mas voltava a me seguir. Fiquei extremamente raivoso, até que ele não voltou a me seguir. Alívio. Não queria vê-lo ser atropelado.

Me vi livre dessa situação mais não de uma subida íngreme, na rodovia sem acostamento e com elevado tráfego de caminhões. Alterno caminhar de um lado a outro da pista, conforme encontro um espaço da terraplanagem entre o talude do corte e a valeta de drenagem da pista. Imaginem: terra fofa e irregular. Foi uma subida tensa e por vezes “bestemei” contra os “organizadores” da Estrada Real, pois o risco é alto para qualquer viajante fora de um motor.

Quando vejo o marco para conversão à esquerda da pista sinto um alívio tremendo. Observo marcos do Caminho Religioso da Estrada Real (CRER). Paro para descanso num apoio do caminho religioso, que se parece com um ponto de ônibus. Como uma laranja, observo a Serra do Caraça e ouço detonações.

Após, sigo o caminho por uma estrada erma, tranquila perante a poeira, até chegar em Santa Rita Durão. Chego para almoçar o meu lanche e whey protein. Paro num banco à sombra, em frente à Igreja do Nazaré. Fico descalço para aliviar os pés. Observo o movimento: da calmaria, chegada de crianças uniformizadas, a sirene da escola avisando a entrada para as salas. Algumas mães brutas e toscas com os filhos.

Movimento de entra e sai de clientes num restaurante. Calço as meias e botas. Ponho-me a visitar a igreja que a pouco foi aberta. Um espetáculo que vale a pena visitar.

Após algum tempo resolvo seguir viagem. O caminho continua ermo e sinuoso. Felizmente sem nenhum problema. Chego em Bento Rodrigues. Cidade pequena. Paro numa vendinha e troco um “dedo de prosa” com o dono – Sandro. Papo bom. Pessoa simples de um lugar simples. Tomo mais um isotônico. Saio de Bento Rodrigues me arrastando. Antes de tomar o rumo à esquerda, subindo um “senhor morro”, passo por uns “lajotões” de pedra, utilizados para fazer uma cerca de uma propriedade. Pressinto que essas lajotas têm alguma história. Deveriam ser de alguma casa, ponte, calçamento ou outra estrutura.

Passo ao lado de uma fazenda vizinha a essas pedras e venho a subir o morro. A alguns quilômetros, passo por um bar de beira de estrada. E percebi um cachorro meio noiado, nervoso. Ele latiu. Eu lati para ele também.

Abrindo parênteses para outra lacuna de espaço e tempo: em Ouro Preto conheci um cicloturista, um homem de Campinas, São Paulo. Ele comentou que quase foi mordido por esse cão. Em Cunha, São Paulo, conheci uma turma de caminhantes da cidade mineira de Peçanha  que estão percorrendo a Estrada Real a pé, de um modo bem peculiar. Membros dessa turma me falaram que uma mulher, participando de uma prova ou fazendo uma cicloviagem, foi mordida por esse cão, estragando assim toda a viagem da mesma. Fechando parênteses de espaço e tempo.

Curvas e subidas pelo caminho até fazer um contato visual com algumas construções do distrito de Camargos. Ufa! Cheguei. A comunidade deve ser bem pequena e tenho que buscar o pouso. Avisto um FIAT Uno Mille estacionado na porteira de uma propriedade. Dois senhores em pé, um deles com uma peça de queijo na mão. Pergunto a eles sobre o local da pousada e, por sorte, o homem segurando o queijo era o proprietário – o Sr. Dario. Ele me oferece uma carona para a pousada e eu somente peço a indicação para ir a pé mesmo, para não realizar uma trapaça.

Ao chegar a Pousada do Dario, o ato mais importante e necessário do momento foi arrancar o par de botas. Pés em pandarecos! Antes de dar início a uma nova prosa, pedi licença para um merecido banho. Estava todo duro e dolorido. Ele pediu muitas desculpas pela bagunça da pousada, pois estava com a área de serviço em obras. Explicou que é aposentado e o estabelecimento era sonho antigo. Não tinha recursos financeiros para fazer tudo de uma vez. Adaptou uma casa. Simples, mas com muito zelo e capricho. Mas para certas coisas, a velocidade lenta é o que enriquece o processo, como o caso de bons vinhos.

Ele ofereceu-me a TV ligada. Eu a desliguei. Fiquei focado nas planilhas e anotações. Pus a carregar os eletrônicos. Tentei lavar roupas, mas não havia varal. Ele me questionou sobre janta e confirmei com muita veemência positiva. O jantar seria feito na vizinha dele, Dona Silvana, às 19h.

No horário estava no local. Ao entrar, vejo a proprietária “catequizando” os filhos.

Arroz e feijão perfeitos, com bife e linguiça frita. Uma salada de alface. Fastio em cena.

Retorno à pousada e converso mais um pouco com o Sr. Dario. Dia pesado com 38km árduos. Fui dormir com dores e tive uma noite agitada.

17o dia

Caminho dos Diamantes
17/setembro/2014
37,91 km percorridos
Localidades
48-camargos Clique para ampliar

Downloads
KML GPX

Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho


Trechos relacionados

Meu pernoite

  • Pousada do Sr. Dario – Camargos
  • Pousada Nossa Senhora do Rosário

Coisas interessantes que vi


Selfies e pessoas que encontrei

  • Sr. Dário

Galeria no Panoramio


Fotografias