Dia 16

Dia 16: Santa Bárbara – Catas Altas

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 04/01/2016 às 19:59

Volto à rotina de trabalho. Arrumo as tralhas e vou tomar um café da manhã bem reforçado e com lanche para a viagem. Faço o check-out na recepção, pego o carro e retorno à Santa Bárbara. Devolvo o carro e ponho-me a caminhar.

Eis que passo pelo local onde fica o vendedor de “vinho de jabuticaba”. Na frente do ponto dele, há uma casa e um moinho em miniatura. Paro para tirar fotos. Eis que o vendedor me chama e pede a mim se ele poderia tirar uma foto minha. Aprovo. Começamos a conversar. O vendedor é conhecido como: o Poeta, ou Viko Uai Gomide, ou Levy Gomide.

Uma ode em carne e osso ao mineiro e a Minas Gerais. Como já usei o termo, não foi um “dedo de prosa”, mas sim uma “mão inteira”. Culto, recitou-me poesia, me fez provar o vinho. Comentou do descaso com a miniatura em frente. Falou um pouco da história de Santa Bárbara. Questionou-me sobre minha caminhada e objetivos. Interessou-se pela minha percepção das Gerais de Minas. Percebi que não é só um vendedor, mais um patrimônio da cidade. É incrível como encontramos algumas pessoas às quais ajusto a prerrogativa de uma tese que ouvi um dia sobre indígenas:

“O índio não tem ou quer terra. Ele pertence à Terra” [1].

Incrível como essa tese se aplica a nós caras-pálidas. Algumas cidades ou lugares tornam-se vazias sem certas pessoas. Invisto um bom tempo na conversa. Conto a ele das minhas boas e breves vivências com pessoas tais como, Amália, Roney e Marconi (amigos, Diamantina), Dona Hanna (pousada, São Gonçalo do Rio das Pedras), Ângelo (caminhante, São Gonçalo do Rio das Pedras), Paulo (teoria da conspiração, Serro), Sr. Antônio (idoso aposentado, Conceição do Mato Dentro), Roneijober (fotógrafo, Ipoema), Sérgio (fotógrafo, Ipoema), Marla, Luis Francis, Kelly, Conceição e Tayane (turma do Museu do Tropeiro, Ipoema) e Fernando (vetor cultural, Bom Jesus do Amparo).

Tive que me despedir para seguir caminho. Pego os contatos e recebo de presente um broche com a bandeira de Minas Gerais. O Poeta tirou do chapéu e eu a fixei na minha camisa. Esse presente me acompanhou até Paraty. Hoje faz parte do acervo dessa minha história.

No caminho para Catas Altas há um ponto histórico muito interessante. É um trecho de um Bicame de Pedra. Um aqueduto construído a preço de 15kg de ouro, esforço e sofrimento de escravos para o fornecimento de águas providas da Serra do Caraça para uma lavra. Ao chegar, tiro um tempo para descansar, refletir e apreciar a construção. Por esse caminho, independente do azimute que eu estava, sempre tinha as montanhas da serra à vista.

Sigo caminho até Catas Altas. Ao entrar na cidade, paro num mercadinho de bairro para tomar um suco de laranja padrão Tampico. Não tinha Gellak. Vou me adentrando a cidade e paro em frente a uma casa colonial reformada, na qual funciona um restaurante/bar noturno. Um carro governamental para e o motorista me pergunta se eu iria escalar a serra. Ele somente me confirmou o que eu presenciei durante todo o dia de caminhada: incêndio na reserva da Serra do Caraça. E foi feio. Pergunto a ele por hospedagem. Ele me ofereceu a casa dele. Agradeci, mas resolvi buscar um canto comercial para ficar.

Sigo subindo uma rua e passo em frente a Igreja do Rosário dos Pretos. Chego à praça central da cidade, tendo a Igreja Matriz N.S. da Conceição. Todo esse espaço urbano apresenta um conjunto arquitetônico colonial com a serra em frente. É uma beleza extremamente rica. Fiquei muito impressionado. Apanho um pouco com o desencontro das informações na busca do local do carimbo. Mas estava próximo.

Passaporte carimbado, busco um local de pouso. Indicaram como a mais barata a Pousada Nossa Senhora do Rosário. Achei cara e não teve negociação: R$70 com café da manhã. Conversei com a dona. No início se mostrou meio receosa, mas depois foi prestativa. Lavei toda a minha roupa e ela centrifugou-as na máquina. Com roupas lavadas e banho tomado, realizo a caminhada exploratória turística. Meu ponto final foi a Igreja de Santa Quitéria. Meio abandonada e mal conservada, tem uma vista ímpar do maciço rochoso da serra.

Retorno à parte central e assisto ao pôr do sol. Sem palavras para tal. Descubro um local para jantar. Um restaurante com comida de fogão a lenha. Comi a melhor couve de minha vida. Literalmente, me entupi de couve!

Volto para a Pousada e para a cama.

[1] Rubem Thomaz de Almeida é antropólogo e entendedor dos kaiowá-guarani.

 

16o dia

Caminho dos Diamantes
16/setembro/2014
23,50 km percorridos
Localidades
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Minhas refeições

  • Restaurante Casa de Taipa

Meu pernoite

  • Pousada Nossa Senhora do Rosário

Coisas interessantes que vi


Selfies e pessoas que encontrei

  • Viko Uai Gomide
  • Bicame de Pedra (1)
  • Bicame de Pedra (2)
  • Na linha

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