Caraça

Dia 15: Santa Bárbara – Santuário do Caraça

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 11/01/2016 às 18:57

*** De automóvel e pernoite no próprio santuário ***

Acordo cedinho e tomo café. Às 7h dou início a um city tour na parte histórica de Santa Bárbara: Igreja do Rosário, Igreja de Santo Antônio, Hotel Quadrado, Prefeitura, Museu Afonso Penna, e casarios. Todo o centro histórico é muito rico. Fui observar os resquícios ferroviários: uma ponte, um trecho da via e a antiga estação ferroviária.

Observo o início do dia. As pessoas indo para o trabalho. O comércio abrindo. Consegui ver tudo que precisava e dirigi-me para a locadora de veículos. Retiro o carro e viajo para o Santuário do Caraça. Na saída da cidade percebo um vendedor de “vinho de jabuticaba”.

No caminho, paro na localidade do Sumidouro para tirar fotos da Capela de São José. Ao entrar na área do santuário, entro na Fazenda do Engenho, onde funciona um hotel. Algumas fotos e o trabalho de equipe para desmontar estruturas de um casamento realizado no local.

Sigo adiante. O caminho é belo. Fazê-lo a pé seria árduo, pois se tratava de 11km de subida. Perderia muito tempo fazendo o trajeto. Paro em um belvedere onde avisto as construções do santuário e a beleza das montanhas de todo o complexo da Serra do Caraça. Ao chegar no santuário, estaciono o meu carro. Durante o caminho entre o estacionamento e a recepção fico atordoado pela arquitetura do lugar.

Alguns fatos do Caraça: igreja neogótica; cama no museu onde a monarquia dormiu; lá funcionava seminário e um incêndio destruiu a ala dos quartos, que hoje se trata de um excelente museu; toda noite é servida comida para o Lobo Guará e o turista pode observar o bichão de pertinho sem riscos; infelizmente, por trás das montanhas, as mineradoras estão “comendo a Serra do Caraça“.

Na recepção faço meu check-in e encontro uma das baianas que conheci em Cocais. Conversamos um pouco, fui almoçar e infelizmente não tive mais notícias delas. Acreditei que iria encontrá-las no refeitório.

O recinto estava agitado, pois havia dois ônibus com grupos escolares. E grupos socialmente muito bem separados: um dos ônibus era formado por adolescentes  filhos de brancos bem nutridos, com “Sucrilhos no prato” (plágio Criolo), três refeições diárias e viagem para Disney. O outro, formado por adolescentes de classe social bem inferior, mas acostumados em beber “o veneno de açúcar de cor preta”, almejar ser algum MC de baile funk e viagem para o Hopi Hari  na formatura. O que ambos tinham em comum: a bagunça legal de todo adolescente; a má educação que alguns velhos criticariam; o consumismo imbecil; o lixo imundo deixado na trilha após a passagem das trupes; a demarcação de suas áreas no contexto da eclosão hormonal. A evolução total da humanidade para o bom e o belo é uma utopia à Thomas More. Volto a crer no trabalho formiguinha e na melhora ao redor do nosso buffer existencial. O resto é utopia!

Me assusta o fato de que, a natureza nos moldes que ela existiu nesses últimos 100 a 1000 anos, não será a mesma no caráter salutar para a vida humana. A nossa fome destruidora e desrespeitadora abrirá nossa própria cova: nem Deus, nem a ciência e nem a capacidade criadora e de adaptação do ser humano serão fortes o suficiente. Espero de coração estar errado!

Bem, mas para a satisfação do meu “boi”, almoço antes da trupe juvenil e evito toda a confusão. Às 13h15 faço uma visita ao museu e me encanto com todos aqueles objetos. Depois da visita, dirijo-me à biblioteca. Acabo descobrindo a existência de uma mapoteca. Estava buscando informações do sistema viário do Brasil colonial, mais principalmente as vias que conectariam o Tejuco/Tijuco/Diamantina à Grão Mogol. E de Grão Mogol, o Parque Nacional da Chapada Diamantina (Bahia)  às vias para a antiga capital colonial – Salvador [1]. Também antigos mapas da própria Estrada Real ligando a Vila Rica/Ouro Preto seriam bem-vindos.

Eis que encontro duas cópias de levantamentos cartográficos. Uma de 1820, realizado/comandado por C. L. Miranda. A outra, de 1821, realizado/comandado por W. von Eschwege. A diferença da qualidade do levantamento é agressiva. Enquanto o levantamento de Miranda parece um desenho infantil, o de Eschwege apresenta uma riqueza de detalhes, principalmente da “cordilheira” da Serra do Espinhaço, que tinha como objetivo a exploração mineral. Infelizmente, fiquei com dúvida se há articulação cartográfica no sentido norte de Minas Gerais no trabalho de Eschwege. A cópia que observei abrange o espaço geográfico delimitado por Ouro Preto a Diamantina. Anoto as referências. Percebo que minhas dúvidas poderão ser sanadas na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Com esse mapeamento, consigo compreender como a Europa Central (Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça) sempre foi centro de excelência na ciência cartográfica e de agrimensura. Fantástico.

Num dos corredores para acesso aos dormitórios, vejo uma gravura representando a Estrada Real. Nela há uma referência de saída para o “Sertão do Mato Grosso”. Depois da biblioteca, aproveito o restante da tarde e vou caminhar para conhecer a Prainha e Cascatinha. Ao retornar, realizo minha pequena contribuição psicopatológica para o ambiente: recolho papéis de bala e afins.

Retorno ao meu apartamento, tomo um banho e descanso um pouco. Preparo-me para a tão esperada visita do Lobo Guará. 18h30 e a bandeja de carne encontrava-se posta “à mesa” para o bichão. Porém, nada. As 20h começa a missa e por “milagre” o lobo aparece. É emocionante. Bicho lindo. O foco dele é a comida. Para os turistas ele nem dá importância. Há 36 anos, os padres vêm alimentando diferentes famílias e gerações dos lobos. Características físicas e comportamentais do animal são explicadas a nós.

Por milagre e agradecimento, assisto a missa e vou dormir.

[1] A região está inserida Serra do Espinhaço. Visualmente delimita-se ao sul, pelo paralelo onde a cidade de Ouro Branco está contida. Continua sentido norte. Em Grão Mogol (MG) a serra tem o nome de Serra de Santo Antônio do Itacambiraçu. A topografia de altitude continua nos limites da Chapada Diamantina, na Bahia, tendo ao norte delimitado pelo paralelo cuja cidade de Campo Formoso (BA) encontra-se inserida.

15o dia

Caminho dos Diamantes
15/setembro/2014
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Referências Bibliográficas

  • TOMPAKOW, R. & WEIL, P. (2009). O corpo fala - A linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. 69a Edição. Editora Vozes, 2009.
  • C. L. Miranda. [Registro bibliográfico]: 32,3x29,2cm, aquarela. AHEx (n.06.01.1127, CEH3208). Foto Vicente Melo CRCH
  • W. von Eschwege. [Registro bibliográfico]: Theil der neuen Karte der Capitania von Minas Gerais. 55,0x45,5cm, litografia. Biblioteca Nacional - BN(CEH 11945). Foto Vicente Melo CRCH