Dia 13

Dia 13: Bom Jesus do Amparo – Cocais

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 04/01/2016 às 19:56

Acordo cedinho, arrumo minhas tralhas, deixo a chave conforme combinado com a dona dos quartinhos e vou à padaria. Tomo meu café da manhã e início os trabalhos diários. Sigo para Cocais em caminho de beleza cênica rural.

Eu tinha um receio, criado na fase de planejamento da caminhada. Entre Bom Jesus do Amparo até a BR-381 seria tranquilo. Após cruzar a rodovia percebi pelo Google Earth a existência de uma enorme gleba de plantio de eucaliptos. Logo pensei:

“Haveria marcos? O receptor GPS poderia perder o sinal dos satélites? Poderia eu me perder?”

Em Diamantina, o Marconi me tranquilizou comentando que havia sim marcos pelo caminho. Em Bom Jesus do Amparo, o Fernando também me tranquilizou, comentando que não havia queixas de outros viajantes.

Tudo transcorre muito bem. O clima estava tão seco e a carência de água era tão grande por Minas Gerais que, ao cruzar essa mata artificial de eucalipto, nem mesmo o cheiro peculiar e característico das folhas era possível sentir. Seco e com essa praga de eucaliptos!

Fica a minha crítica. Minas Gerais está virando um conjunto de buracos – devido às mineradoras – e estão a plantar só eucaliptos – produção de carvão vegetal para o próprio processo metalúrgico. Não está longe o dia que será raro o tão famoso leite mineiro, seus queijos e pães de queijo. Em outras duas viagens em julho e agosto vi o eucalipto detonar a região do Circuito Grande Sertão Veredas, de Andrequicé a Cordisburgo. Também na região de Montes Claros, Grão Mogol e no caminho a Salinas. Águas nas cavernas do Maquiné e Rei do Mato não são mais constatadas há anos. Tristeza.

Voltando para a trilha, a aproximadamente uns 5km antes de Cocais, passo por uma pista de paintball e resolvo parar a uns metros à frente, protegido pela sombra de uma árvore. Resolvo fazer o meu lanche-almoço. No descanso vejo um caminhante. Era o Sr. Alessandro que me alcançou. Chamo-o, mas ele não me ouviu. Sigo o rumo para a estrada e o chamo novamente. Dessa vez ele me ouviu e veio ao meu encontro. Nos apresentamos. Ele olha para o meu peito, aponta para o receptor GPS e pergunta:

“O que é isso?”

Também me questiona o porquê estava caminhando somente com um bastão. Olha com um tom de sarcasmo e desaprovação. Literalmente ele não caminha. Ele voa. A média de velocidade praticada por ele é 6km/h. Ele pediu para continuar no ritmo e ficamos de nos encontrar na Pousada das Cores.

Ao chegar em Cocais, entro por uma parte nova do local. Paro em um mercadinho, pois vi uma geladeira da Gellak. Também troco uma prosa com a irmã do dono do estabelecimento. Uma morena de beleza simples e singela. Mora na cidade vizinha de Barão de Cocais e nos finais de semana vem ajudar o irmão. Com todo o respeito, não era só o picolé interessante. Há uma maneira de ser, revelados no sorriso e no carisma que só vi nas mineiras.

Sigo o caminho a procura da Pousada das Cores e começo a adentrar na Cocais histórica, revelada pelo “pé de moleque”, os casarões e a igreja. Enfim encontro o local.

Havia um certo grau de agitação laboral no local. Mulheres na cozinha trabalhando ensandecidamente. Nessa labuta o dono – o Sr. Everton – também estava com a mão na massa. Me atendeu e passou a chave do quarto. Resolvi esperar um pouco antes de subir.

Eis que aparece o meu novo amigo corredor-caminhante Sr. Alessandro. Estava bufando por comida. E ele fez jus à genética italiana: com fome, torna-se um ogro primata. Apareceram uns ciclistas. Subi ao quarto e fui tomar um banho. Percebi que a turma sobre rodas pegou chaves também. Movimentações nos corredores. Porém, quando desci para sacar o movimento, todos sumiram. Resolvi não almoçar.

Fui perambular pela comunidade. Várias fotos da arquitetura histórica. Paro em uma padaria para comer um salgado, nisso aparece o Sr. Alessandro. Ele me incentivou e acabamos tomando “una birra”. O cara é uma figura. 63 anos, aposentado da FIAT em Betim e morador do Brasil a mais de 18 anos. Percorreu o Caminho de Santiago de Compostela. Percebi que o barato dele era percorrer no menor período de tempo. Enquanto eu investia o meu tempo em “turistar” pelas belezas históricas do interior mineiro, ele, mesmo aposentado, tinha uma “carta de alforria” com prazo de validade, emitida pela “vossa senhoria”. Cada um sabe aonde o calo aperta.

A cerveja e a conversa rolaram sentados no meio fio da calçada. Fiquei observando a festa de uma cachorrinha comendo uns pães dados por uma senhora. Nunca pensei que a calmaria de cidades pequenas um dia seria meu objetivo para momentos de vida. O Sr. Alessandro foi à busca de um telefone público, pois celular não funciona por esses lados.

Por fim, eu acabo a perambular. Gostei muito da praça. Uma mãe e uma criança brincavam livremente. No outro, lado um cavalo pastando. Uma árvore impregnada de abelhas trabalhando na coleta do néctar. Casas antigas. Visito o Sobrado do Cartório.

A tarde se esvai e resolvo voltar à hospedagem. Chegando lá havia novos hospedes, um casal de Salvador. As duas estavam percorrendo a Estrada Real de carro simples, nada de 4×4. Providenciamos a encomenda do jantar. O Sr. Everton nos explicou que iria acontecer um sarau naquela noite para adolescentes da cidade. Vimos que muitos estavam vestidos de gala. Na sala de visitas do casarão acabamos interagindo: o italiano, o casal e eu. A janta foi servida. Comida simples e muito boa. Os três caíram dentro das garrafas de cerveja. Eu me contive. Passamos horas conversando. Fui dormir!

13o dia

Caminho dos Diamantes
13/setembro/2014
26,78 km percorridos
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