O tropeiro

Dia 12: Ipoema – Bom Jesus do Amparo

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 11/01/2016 às 18:54

Arrumei as minhas tralhas e fui à padaria da rodoviária – da família da Dona Euzebia – tomar o meu café da manhã.

Me programei para comer e logo ir ao Museu do Tropeiro conversar com a Tayane. Gente boa. Estilo de mulher bruta, de lida de fazenda. Uma figura. Contei a minha curiosidade perante o movimento tropeirista, a questão geopolítica do sul da América do Sul, o Tratado de Madri (1750), o massacre dos Guaranis, a prata de Potossi, a hipótese de prata e contrabando escoados via Colonia del Sacramento, as disputas luso-hispânicas de Colonia del Sacramento e a invasão espanhola na Ilha do Desterro (Florianópolis), em 1777. A descoberta do dia anterior para mim foi uma boa surpresa: o nascimento do tropeirismo no Brasil está relacionado com a criação de muares na cidade argentina de Córdoba.

Tudo isso para tentar sondar com ela alguma informação ou referências bibliográficas sobre movimentação de mercadorias no Brasil Colônia para os Países do Prata – Uruguai, Argentina  e Paraguai, utilizando-se do Rio Paraguai e Rio Paraná.

Para minha surpresa, a Tayane comentou de que muitas pessoas que se intitulam “tropeiros” na região de Ipoema, nos últimos 100 anos, na maioria das vezes realizavam viagens curtas, de 30 a 100km de distância.

Ela comentou de um senhor há poucos anos falecido, com idade superior a 80 anos. Segundo a Tayane, ele sim poderia ser considerado um verdadeiro tropeiro, pois realizava viagens que via a consumir 6 meses ou mais. Outra rica informação que ela comentou desse falecido tropeiro: o mesmo realizou viagens com tropa à Bolívia.

Abro um parêntese, na narrativa temporal de minha epopeia para descrever aqui algumas percepções: (a) O Brasil nunca possuiu minas de prata; (b) A prata consumida aqui era importada, sendo Bolívia e Argentina as possíveis origens; (c) Ao visitar museus de obras sacras nessa viagem, percebi que as ornamentações de imagens, suportes do Santíssimo e demais objetos de prata, haviam uma inscrição de registro da coroa, proveniente do Rio de Janeiro. Aqui há a hipótese do rastreamento e do controle tributário sobre a prata que entraria “legalmente” no Brasil Colônia e era distribuída em forma de objetos às cidades mais pujantes do interior; (d) Nem hoje o Estado Brasileiro é eficiente e eficaz no controle de entrada e saída de itens legais ou ilegais no país. Imaginem naquela época? (e) Nenhum transportador viaja com seus balaios, baús, vagões ou porões vazios. Sempre há carga de ida e volta, ou alguém que subsidie a viagem em transito “descarregado”; (f) Nos interiores remotos a nobreza imperial e colonial carioca, a utilização de escambo ao invés de moeda poderia ser uma prática corriqueira.

Nesse contexto, posso me dar ao luxo de colocar os meus pensamentos a elucubrar alguma hipótese de interação comercial entre as Capitanias Hereditárias do interior do Brasil Colônia e as demais colônias sobre o domínio espanhol. Fecho parêntese.

Quando ela me falou Bolívia, caiu a ficha. Se ele já o fez, é que alguma relação comercial existiu. E a probabilidade de antepassados de gerações anteriores também terem realizado viagens a lombo de mulas para Bolívia e Paraguai são fortes. E quem sabe para algum portinho em Corumbá (MS) ou na beira do Rio Paraná? Logo após da conversa com a Tayane, me despedi, trocamos contatos, tirei uma foto e segui meu rumo para Bom Jesus do Amparo.

A distância a ser percorrida é curta. Mas resolvi me hospedar na cidade por três motivos: (a) conhecer e prosear com o Fernando Gonçalves, divulgador e um promotor autônomo e apaixonado pelos viajantes e pela própria Estrada Real (apesar de nunca ter percorrido); (b) visitar a Igreja do Senhor Bom Jesus do Amparo com uma das únicas estátuas de Jesus com 12 anos de idade; (c) ver a cruz da primeira missa realizada em Brasília.

No caminho, o sol forte e a rodovia asfaltada foram meus parceiros. Caminhando tranquilamente, num certo estágio percebo que não estava só na rodovia. Me deparei com uma cena surreal. Olho para a minha esquerda e vejo um homem, vestido com uma camisa do Flamengo e andando de pés descalços no asfalto. Estava com uma faca na mão, mas de cara percebi que a energia dele era boa. Nos cumprimentamos e ele veio caminhar ao meu lado. Ele era morador da região e trabalhava numa fazenda. Expliquei a ele que estava realizando a caminhada pela Estrada Real e iria parar no Estado do Rio de Janeiro. Ele deu um pulo de surpreso e assustado com essa minha insanidade. Eu o retruquei:

“O senhor que é louco em caminhar descalço nesse asfalto quente!”.

Ele respondeu naquele sotaque caipira mineiro maravilhoso:

“Temo acustumado desde criança. E essa é a lida. To indo ve uns calipto ai na frente”.

Maravilhoso esse sotaque e a entidade Mundo Caipira!

Lembro-me que por mais de uma vez observei nas estradas pegadas de pés descalços. Principalmente de crianças. Isso brota um sentimento ruim e bom. Ruim em perceber que muita gente não tem o conforto mínimo e sofre com o sol. Eu com minhas botas e meias técnicas… O lado bom é do agradecimento e da consciência. Em ter sensibilidade para ver isso, perceber e agradecer o que tenho e o que está sendo proposto a mim nessa viagem!

Sigo o meu rumo no asfalto quente. Passo por uma grande fazenda a minha direita. Suponho que produza leite e frangos. Na margem esquerda da rodovia, a fazenda possui uma capelinha para suportar a fé de seus donos.

Depois dela, sigo por uma subida e um conjunto de umas quatro curvas. Nas duas margens da rodovia percebo a hostilidade da existência humana: lixo urbano às margens e a presença de urubus. O que eu encontro? O acesso ao lixão da cidade. Aterro? Que nada! Lixão mesmo. Tapo o meu nariz com o Ecohead, mas não adianta muita coisa. O azedo é muito forte. Forma tosca de dar boas-vindas a quem chega a Bom Jesus do Amparo.

Aperto o passo e pego uma descida até perceber que o azedo não é mais presente. Começo a avistar casas e a linha urbana. Avisto uma igreja na entrada da cidade, tiro foto e sigo o rumo à direita, conforme guiado pelo receptor GPS. Percebo que a cidade é simples e não tem muito apelo com casarios históricos.

Um rapaz a caminhar na calçada inicia uma breve conversa. Confirmo com ele o sentido do centro e o local de uma hospedagem. Porém, para tal, tinha que subir o morro pela minha esquerda. Resolvi postergar a busca da hospedagem. Chego à Praça Cardeal Motta. Bem, pelo que percebi ao visitar a cidade, a mesma é ou foi um feudo econômico e político da família Motta. Esse cardeal foi que realizou a primeira missa na novíssima capital: Brasília.

Ao sentar-me em um banco da praça já ouço alguém gritar o meu nome. Quando me viro, o Fernando se apresentou. Passamos então praticamente o dia todo juntos, conversando e fazendo algumas visitas pela cidade. Praticamente, o Fernando é um dos exemplos de como é belo apaixonar-se e dedicar-se por uma causa “energeticamente” nobre. Não consegui arrumar outra palavra para tal. Tem gente que só está encarnado nesse mundo para satisfazer o “boi” descrito por Weil & Tompakow (2009).

O Fernando sistematicamente conversa com todos os transeuntes da Estrada Real. Estando de moto, jipe, a pé, bike ou a cavalo ele entrará em contato. Em cadernos universitários ele organiza um livro de registros dos viajantes. De onde são? Quem são? Onde iniciaram? Onde acabarão? Como estão viajando? No Facebook dá para verificar um pouco do “monitoramento” dele. E digo que dá vontade de pegar as botas e o chapéu. Ou a bike. Sentir o prazer de carimbar mais uma vez o passaporte.

Eu já estava sendo monitorado por ele, através de conversa com o um contato de Ipoema. Nesse controle dos viajantes, o Fernando me colocou a par de um italiano que estava a minha procura. Que iria me alcançar. Essa foi a primeira vez que ouvi falar do Sr. Alessandro. As informações que me chegaram foi que ele partiu uma semana após o meu início da caminhada, em Diamantina. Iria também percorrer o mesmo percurso com término em Paraty.

Eu vulgarmente, com um pouco de ira do meu Marte, mandei o gringo às favas. Retruquei para o Fernando:

“Não estou aqui para competir com ninguém. Estou aqui para meu conhecimento histórico-geográfico e para testar os meus limites! Pouco me importa se ele me alcançará ou não. Que vá a merda!”.

Depois dessa explosão, me arrependi da verbalização. Cada maluco tem seus objetivos e percepções dos porquês de estar caminhando um longo trajeto. Tem os que querem caminhar no menor tempo. Os que querem uma autorreflexão. Outros que querem, ao percorrer o caminho, experimentar todas as cachaças artesanais nas paradas. Outros que querem fazê-lo no ar-condicionado e tirar fotos para Facebook e Instagram. Enfim, humanidades.

Agora como guia da cidade, o Fernando me levou a Igreja do Senhor Bom Jesus do Amparo , para conhecer a imagem do Jesus adolescente. Porém, a igreja estava fechada. Uma segunda tentativa, ao bater à porta da casa do padre para tentar pegar a chave. Frustração. Nada de chave. Impossibilitado assim em visitar essa riqueza arquitetônica e histórica do local.

Na saída, a poucos metros da praça, acabo tendo uma ótima surpresa. Encontrei na cidade o fotógrafo Sérgio Mourão, que conheci no Museu do Tropeiro de Ipoema. Acabamos os três juntos a fazer uma visita a Prefeitura Municipal. No local, visitamos um pequeno e sutil memorial ao violonista Mozart Bicalho. Na mesma sala havia também um acervo com fotos e documentos relacionados ao Cardeal Motta.

Outra ótima descoberta foi a existência de uma fazenda histórica colonial: Fazenda Rio São João. Restaurada com dinheiro público, mas o proprietário não permite a visita turística a essa joia da história colonial brasileira. É bem Brasil!!!!!

Após, fomos visitar a Casa de Artesanato Prata da Casa. Tivemos uma pequena prosa com a proprietária e registramos algumas fotos. Assim o dia passou.

O Fernando indicou algumas opções de hospedagem e deixou comigo o caderno de registros para eu escrever algo.

Optei por uma dica bem barata: um quartinho simples ao lado de um posto de lavagem de veículos a um preço de R$25. O café da manhã foi na padaria. Valeu a economia.

Janto em um restaurante cuja dona foi muito agradável. Ela sabia que eu era de fora e tinha estado com Fernando. Cidade pequena é assim: a “rádio peão” funciona muito bem. O “prato-feito” era muito bom e saboroso.

Escrevo o texto no livro de registros do Fernando ainda no restaurante. Após, volto ao quartinho e coloco-me a dormir.

12o dia

Caminho dos Diamantes
12/setembro/2014
13,89 km percorridos
Localidades
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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
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Coisas interessantes que vi

  • Livro de Registro dos Viajantes

Selfies e pessoas que encontrei

  • Com Fernando
  • Em Bom Jesus do Amparo

Referências Bibliográficas

  • TOMPAKOW, R. & WEIL, P. (2009). O corpo fala - A linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. 69a Edição. Editora Vozes, 2009

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