O ínicio da jornada

Dia 1: Diamantina – Vau – São Gonçalo do Rio das Pedras

Por Rafael José Rorato
Adicionado ao site em 27/11/2015
Modificado pela última vez em 05/01/2016 às 01:42

É chegado o grande dia. A ansiedade era tanta, que mal consegui dormir direito. Acordo bem cedo e tomo o café da manhã preparado em horário especial para mim, pois o mesmo era servido mais tardiamente aos hospedes. Meu plano contemplava a partida às 6h ou 6h30. Porém, o realizado não ocorreu conforme planejado.

A saída foi bem conturbada. Percebo a mochila pesada, contendo algumas “gorduras de equipamentos”, além dos itens que havia despachado pelos Correios na manhã do sábado anterior. Retiro-as da mochila e as deixo com minha irmã.

Um misto de empolgação, excitação, ansiedade e receio do desconhecido. Abraço-a fortemente e digo adeus. Transponho a porta da Pousada Capistrana e a poucos metros me assusto com um fato: a poligonal do tracklog – a rota – baixada do site do Instituto Estrada Real e reeditada para meu uso e demais caminhantes que queiram utilizá-la, não estava aparecendo no monitor do receptor GPS. Reflito e lembro-me da limitação do número de nós do tracklog imposta pelo aparelho. Retorno ao quarto do hotel e minha irmã pergunta o que passa. Fico tenso e agitado. Preocupo-me com o tempo perdido. Minha irmã comenta objetivamente:

“Respire Rafael. Se acalme e respire! Aprenda a respirar…”.

Computador ligado, abro o programa GPS Trackmaker e segmento a poligonal em três partes. Conecto o cabo ao computador e ao receptor GPS. Transfiro o primeiro um terço e pronto. Novamente, abraço minha irmã, registro uma foto do momento e verifico o horário. São 7h15. Diamantina começava a movimentar-se: comércio abrindo as portas, crianças indo à escola e pessoas dirigindo-se ao trabalho. Sigo por uma forte ladeira ao lado da Igreja do Rosário.

Essa era saída para Curralinho. Caminho familiar para ir à Gruta do Salitre e à Estância do Salitre da família dos amigos Amália e Roney. Eles, na recente memória e em local especial no meu coração. Na mochila, uma última demonstração do querer bem deles. Uma “marmitinha” com um lanche especial do Café Mineiro Lanches: biscoitos e um maravilhoso bolo de milho.

Saio da parte urbana periférica de Diamantina transpondo uma ponte e, logo após, pela obra de pavimentação da Estrada Real.

As primeiras horas de caminhada instigavam o pensamento no desconhecido, perante a minha capacidade física e psicológica. Pego uma descida forte até cruzar o Ribeirão do Inferno. Obviamente, do outro lado da ponte, uma subida muito pior. Sinto a mochila extremamente pesada. Após o término da subida, paro para descanso e hidratação. Nesse momento, perco uma garrafinha de água, esquecida no local.

No caminho, fico deslumbrado pela geografia da região. Uma novidade em beleza cênica, nas formações rochosas, na vegetação e nas montanhas. Meu pensamento vai longe, ao imaginar o que será encontrado pelo caminho.

As horas passam e caminho por uma região alta com nuances de sobes e desces. Começo a pensar na ideia de almoço. Fico atento a possíveis locais com sombra. Eis que, a beira da estrada, encontro uma lapinha localizada antes da comunidade do Vau, com fortes indícios da serventia de parada para demais viajantes e pessoas. Protejo-me do forte sol do meio dia e almoço fruta, sanduíche e o suplemento alimentar. Permaneço no local por longos minutos, para aliviar as primeiras dores nos ombros. Quebro minha inércia e sigo o caminho.

Pelo meu guia eletrônico da caminhada, sei que antes do último distrito de Diamantina há uma pousada. Eis que chego à Pousada Recanto do Vale. Resolvo parar para pedir água. Entro pela porteira e depois pelo acesso dos hóspedes. Sou atendido pelo Sr. Geraldo. Sento à sombra de um caramanchão e bebo duas garrafinhas de água. Levo um dedo de prosa e de lambuja recebo um convite para um café. Temáticas referentes à própria caminhada, à falta de chuva, ao desmatamento da região, à vida no campo e até um pouco sobre política são abordadas nesses minutos. Despeço-me e sigo o meu rumo. Estava a poucos quilômetros do Vau.

Chego ao Vau e tiro fotos de algumas casas e da igreja. Descubro um Centro de Apoio ao Turista e Viajante da Estrada Real. Tudo bem organizado, com uma área para refeições, cozinha e até acesso à internet, para as pessoas que não vivem sem ela. Sou atendido pela Sra. Tereza. Obviamente tenho um dedo de prosa e tomo suco de acerola com a fruta colhida na região. Verifico o Guia Cicloturístico da Estrada Real, do Marconi, e lembro-me do seu alerta:

“… São 3,5km de subida árdua entre o Rio Jequitinhonha e São Gonçalo do Rio das Pedras. Após quase 40km percorridos, essa última subida é para matar!”

Penso nessas palavras e leio a altimetria do gráfico. É assustador.

Dou adeus Sra. Tereza e dirijo-me a São Gonçalo do Rio das Pedras. Primeiramente sigo poucos metros até cruzar por uma ponte sobre o Rio Jequitinhonha. Logo de cara, após a cabeceira da ponte, uma íngreme subida com muito pó talco no chão. A pista se deteriora a ponto de literalmente virar talco. Torço para que nenhum veículo passe, pois seria péssimo. O Ecohead nesse momento é extremamente útil. Sigo lentamente a subida e percebo, ao longe, o barulho de motor diesel. Olho para trás e percebo bem lá embaixo um ônibus. Tento acelerar o passo até chegar à porteira de uma pastagem. Espero o ônibus passar e a poeira baixar. Continuo a subir e subir. Avisto placas indicativas de pousadas. Logo avisto de longe algumas torres e algumas construções. Mochila pesada.

Para hospedar-me em São Gonçalo do Rio das Pedras, tinha uma indicação da Amália:

“Procure a Pousada Cinco Amigos e apresente-se à Dona Anna, proprietária, como meu amigo.”

Quando chego ao distrito, avisto as primeiras construções. A poucos metros do meu nariz leio em muro, localizado na convergência de duas ruas, a indicação da Pousada Refúgio Cinco Amigos. Fico na dúvida em qual rumo tomar para acessar a pousada: se deveria seguir para a esquerda ou para a direita. Estava exausto e não queria errar o caminho, muito menos caminhar um metro em demasia. Observo que, ao lado direito do muro, tinha um mercadinho e o local para buscar a informação. Ao mirar os olhos para a rua à esquerda, avisto uma senhora de cabelos brancos e de óculos vindo no sentido contrário. Resolvo buscar informação com ela ao invés do mercadinho. Dirijo-me ao encontro dela. Em poucos segundos, descubro que essa senhora é a própria Dona Anna, proprietária da pousada, suíça e há anos residente no Brasil.

Dona Anna me encaminha para dentro da pousada. Pela qualidade da mesma, acreditei que seria esfolado no preço da diária. Segui o conselho da Amália e me apresentei como amigo dela. A senhora me encara, analisa a situação e me pergunta:

“Estás percorrendo a Estrada Real a pé?”

Respondo que sim.

Como resposta tenho uma ótima surpresa, quase que uma benção.

“Para caminhantes peregrinos da Estrada Real tenho um preço especial.”

O preço foi ótimo. Muito aderente ao meu orçamento. Porém, fica a dica para não abusar da sorte e da boa vontade dos outros. Os fatores principais: não era final de semana, período de férias ou algum feriadão. Também, a pousada estava vazia. Assim, fica a dica para os novos caminhantes: planeje as cidades e comunidades com grandes atrativos turísticos evitando períodos de alta temporada.

No quarto, tomo um longo banho e as lágrimas surgem. Sinto-me agraciado e agradecido por tudo. Pelo banho quente. Pela cama. Pelo conforto. Por conseguir vencer a primeira etapa, mesmo com dores e sol forte.

Com banho tomado, questiono a Dona Anna sobre a possibilidade do empréstimo do tanque para lavar roupas. Com a resposta positiva, fui orientado a lavanderia. Lavo-as na mão e depois as centrifugo na máquina emprestada. O ciclo estava demasiadamente demorado e a fome me consumindo. A senhora gentilmente comentou que penduraria as roupas.

Por indicação, sigo em busca do restaurante. Uma pizzaria. Entre a pousada e o restaurante eu avisto o Receptivo Familiar do distrito. Eu gostaria de ter ficado no local, tal como foi positiva a minha experiência em Grão Mogol. Porém, no website do projeto não há contatos telefônicos.

No cardápio do jantar, felizmente nada de pizza. Um prato especial da casa que ganhou algum reconhecimento e premiação gastronômica: um pequeno frango com arroz branco e cuscuz. Muito melhor que pizza! Como entrada, uma salada verde com uma geleia de abacaxi com pimenta para temperá-la.

No restaurante havia duas mulheres. Uma negra charmosa, a outra com cabelo curto e capacete de moto. Tivemos uma pequena conversa e ambas ficaram admiradas pela minha caminhada. Comentaram que muitos negros pobres da região tinham que ir até a cidade de Serro a pé. Uma mulher foi grávida, realizou o parto e voltou a pé para a comunidade. 32,6km de distância até o Serro. O que eu iria caminhar no dia seguinte.

Aqui consigo o registro do primeiro carimbo para o passaporte. Vou dormir feliz.

1o dia

Caminho dos Diamantes
01/setembro/2014
34,88 km percorridos
Localidades
Locais de beleza exuberante!

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Todos os trechos

Acesse abaixo todos os trechos que já percorri na Estrada Real.

Caminho dos Diamantes
Caminho Velho


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Minhas refeições

  • Café Mineiro Lanches
  • Centro de Apoio ao Turista e Viajante da Estrada Real
  • Pizzaria Quero Mais
  • Berola do Gilmar

Meu pernoite

A Estância do Salitre, em Diamantina e o Receptivo Familiar em São Gonçalo do Rio das Pedras são opções para os viajantes. A Pousada Recanto do Vale utilizei como apoio logístico para água, café e pausa da caminhada. É uma opção um pouco fora do orçamento para caminhantes de longa distância e com restrições orçamentárias. Mas é uma boa dica para hospedagem.


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Galeria no Panoramio